Apresentação

Lucas Arruda, Chiara Camoni, Kelton Campos Fausto, Bendt Eyckermans, Coco Fusco, Josi, Patricia Leite, Scott Lyall, Anna Livia Monahan, Shota Nakamura, Paulo Nazareth, Pedro Neves, Antonio Obá, Vera Pagava, Rosana Paulino, Solange Pessoa, Marcos Siqueira, Daniel Steegmann Mangrané, Hiroshi Sugimoto, Lee Ufan, Sally von Rosen e Marie Zolamian.

Há algo na brisa e no silêncio que antecedem a impetuosa tempestade – uma lição silenciosa sobre a linha tênue entre permanência e transformação. É nessa fresta, entre o desconhecido que se avizinha e o que insiste em repousar, que certos gestos artísticos se deitam, oferecendo aos sentidos a possibilidade de uma pausa diante do vertiginoso.

No decorrer do tempo, o conceito do sublime como categoria estética foi profundamente investigado por diversos pensadores. Suas formulações procuram dar conta de como nos sentimos diante de fenômenos que transcendem a nossa compreensão, nos lançando no paradoxo entre o fascínio e o assombro. Em um dos primeiros tratados sobre o tema, Longino, referindo-se à retórica e à literatura, descreve o sublime como forma de reconfigurar nossa percepção moral. Séculos depois, Kant defende que o sublime não reside no objeto, mas no espírito humano, que, ao confrontar-se com a própria pequenez física diante do mundo, afirma sua superioridade racional.

A exposição Um olhar sereno sobre o mundo busca abordar essas tensões, ativando o campo sensível do espectador diante de gestos artísticos que, de algum modo, nos acalentam na mesma medida em que nos inquietam. Há um impulso humano de tentar organizar o pensamento por meio de princípios que ofereçam alguma estabilidade à compreensão do cotidiano. Também é comum a tentativa de decompor e racionalizar os processos que orientam a criação artística, como forma de desmistificá-la. Entretanto, mesmo quando munido de repertório teórico e histórico, o espectador não se encontra imune ao tremor diante de trabalhos que evocam o mistério.

águas calmas correm profundas
– Provérbio latino

Um horizonte turbulento se revela na pintura de Lucas Arruda. Ainda distante, o temporal, construído em pinceladas finas e contínuas, ganha corpo como fragmento de memória, configurando uma imagem que busca dimensionar esse fenômeno natural no campo da psique. Em contraponto, há uma representação da Woodland Chapel, captada pela lente de Hiroshi Sugimoto. A economia visual da fotografia faz paralelo ao gesto paciente e primoroso de Arruda. A forma como Sugimoto compreende a luz através de uma câmera de grande formato e ajusta o obturador para “captar o infinito” suscita a leveza e a perenidade do pintor brasileiro. A abstração de Vera Pagava trafega em sentido similar: tomando como referência o céu de Paris e a luz que entrava por sua janela, a pintora reduz o mundo a planos em que o tempo parece repousar. É nesse movimento que a imersão nas zonas psíquicas de cada artista se apresenta como via possível de elevaçãz spiritual.

Em meio a esse diálogo, surge no campo de visão a obra de Lee Ufan, um monólito sobre uma densa placa de ferro – o encontro entre a geometria irregular da matéria originária e a geometria ideal que emerge da industrialização. A disposição dos trabalhos naturalmente nos convoca a um exercício introspectivo e demorado do olhar. Em Mask, de Daniel Steegmann Mangrané, esse mesmo encontro se condensa na escala do ínfimo: folhas de diversas árvores, dentre elas Camboatá, Abacateiro e Quarubá, parcialmente recobertas por folhas de ouro e prata, de modo que o mineral extraído e refinado retorna ao contato direto com o vegetal. O brilho desses materiais e a geometria perfeita sobre a superfície escura das folhas secas tanto encanta quanto desestabiliza a percepção, criando uma nova leitura para o resíduo orgânico. Não sabemos ao certo se estamos diante de um fenômeno natural, uma incisão industrial ou um objeto ritualístico de um tempo perdido.

Se em Steegmann Mangrané o ouro ainda preserva a espessura do gesto manual, em Scott Lyall ele se dissolve por meio de processos tecnológicos avançados. Ao prescindir da mediação direta de uma imagem definida, a obra de Lyall – feita com impressão a jato de tinta curada por UV sobre vidro, espelho, gel acrílico e nanopartículas de ouro – se materializa em monocromos de profundidade infinita. Diante de seu trabalho, o olhar descansa ao mesmo tempo em que não se aquieta, estimulado pelas inúmeras possibilidades do que pode vir a se revelar na abstração magnética do artista. Se em Lyall a contemplação se demora sobre o que não se revela, em Coco Fusco outras partículas se assumem de maneira mais direta, na frase delineada no céu: “Only in darkness can you see the stars”. Em sua materialidade efêmera, as palavras dissolvem-se com o vento. No entanto, é exatamente ao transcender a forma de modo sutil que a mensagem pode tornar-se perene.

Em outra perspectiva escultórica, as figuras híbridas e retorcidas de Sally von Rosen carregam o mistério em seu interior. Esses seres amorfos não se revelam completamente, abrindo margem para a imaginação. Suas formas, que podem remeter a membros de corpos humanos ou de outros animais – pernas, braços, garras e articulações –, equilibram vivacidade e morbidez, propondo uma espacialidade que convida o espectador a se movimentar em seu entorno, a observar-se a partir da estranheza de outro e a formular novos questionamentos diante do enigma.

e um dia bem distante a mim tu voltarás.
e no canteiro materno de meu seio tranquilo dormirás.
– Cora Coralina

A mostra opera como um sistema natural em que as atmosferas singulares de cada artista se expõem e se contaminam mutuamente, formando um ecossistema aberto e em constante expansão. Nesse ambiente poroso, também o espectador se projeta, ainda que à margem das próprias expectativas. A relação que se estabelece não passa pela apropriação, tampouco pela reverência: trata-se de uma sinergia que só se faz possível porque somos, nós mesmos, parte da matriz natural que a arte procura representar.

Nesse amálgama, em que estamos todos entrelaçados numa mesma estrutura ecológica, somos constantemente influenciados pelo alumbramento da projeção artística e pela força criativa singular de cada gesto. Contribuindo para esse encadeamento, a pintura de Antonio Obá encena uma luz expansiva, gestada em sua narrativa particular, algo que ressoa nas miragens crepusculares de Patricia Leite e, em chave inversa, na ausência de claridade que atravessa a série Breu Imaginoso de Josi. Entre o que se irradia e o que se resguarda, configura-se uma dimensão primordial em que o olhar aprende a se ajustar às variações existenciais.

As obras de Chiara Camoni operam num terreno em que o fazer escultórico se confunde com o gesto ritual. Suas figuras em cerâmica, adornadas com flores, cinzas vegetais, terra e areia, evocam divindades ancestrais de um panteão anterior à própria noção de arte. O sublime em Camoni não é o da vertigem kantiana diante do incomensurável, mas o da contemplação de uma forma que guarda, no próprio corpo, o tempo das estações. Na pintura de Marcos Siqueira, o mesmo terreno se revela por outra via. O artista transforma a caminhada em método: colhe, em suas incursões diárias pelas trilhas da Serra do Cipó, os pigmentos que vão configurar a paleta de suas pinturas e é com essa matéria natural que o artista registra, com rara sensibilidade, devaneios subjetivos e episódios cotidianos de sua comunidade. O eco que se desprende desses dois trabalhos encontra forte ressonância na obra de Solange Pessoa. Em suas pinturas feitas com terra, testemunhamos seres sem forma definida, em movimento, flutuando como princípios vitais. Kelton Campos Fausto traz também os mesmos elementos de Pessoa e Siqueira e em suas pinturas figuras híbridas emergem do próprio plano – figuras que parecem nascer do solo ou nele se dissolvem, num trânsito entre presença e desaparição que tensiona a matéria com a história inscrita nesses corpos.

Signos de profundas questões espirituais, biológicas e sociais resplandecem na obra de Rosana Paulino incorporadas pela força da figura feminina. O título do trabalho Comigo ninguém pode (da série Senhoras das plantas), toma emprestado o nome de uma planta tradicionalmente cultivada em terreiros e casas brasileiras – símbolo de proteção e resistência, cuja própria denominação popular se oferece como advertência. No desenho, a figura negra, esboçada em aquarela e linha solta, surge em simbiose com a terra: raízes brotando de seus pés, folhas coroando sua cabeça, um galho entre os dentes.

Esse registro ganha contornos mais sutis nas paisagens de Pedro Neves, Marie Zolamian e Shota Nakamura. Nos três, a pintura de paisagem recusa aquilo que historicamente lhe conferiu autoridade – o horizonte, a distância, o ponto de fuga – e opta por nos lançar para dentro de uma vegetação que vibra menos como natureza vista pelos olhos da biologia do que como atmosfera – envolvente, imprecisa, quase onírica. É nessa recusa que os três, cada um a seu modo, encontram pontos de contato com o mistério fundador da pintura de paisagem: não o da representação fiel do mundo, mas o da insistência em tornar visível aquilo que, na natureza, permanece indizível.

Se nessas paisagens o inexprimível se guarda como atmosfera, em Bendt Eyckermans e Anna Livia Taborda Monahan ele se faz cena: o sonho se infiltra na superfície do mundo, o mistério deixa de ser clima e vira narrativa. Em The carrier, Bendt Eyckermans pinta um homem que carrega, pela rua de pedra de uma cidade noturna, uma escultura escura – um busto arrancado do tempo, ancorado pelos braços humanos, como um corpo que pesa fora do seu lugar. O cenário é cotidiano – a fachada da casa, o carro estacionado, o número na porta –, mas a luz teatral e a gravidade silenciosa do gesto deslocam a cena para outro plano: o do ritual, do sonambulismo, do instante em que algo que não se pode nomear atravessa a vida comum. Anna Livia Taborda Monahan opera na chave inversa: o onírico já é a condição essencial do mundo. Suas composições trazem paisagens carregadas de energia, criaturas híbridas e situações insólitas: um terreno em que o estranho não é exceção, mas a lente pela qual a natureza se deixa entrever em toda a sua complexidade. Entre Eyckermans e Anna Livia, configura-se uma zona em que o surrealismo se apresenta como modo de dizer que a realidade, se olhada com atenção, já é atravessada por aquilo que escapa à razão.

Se até aqui o olhar sereno se ofereceu pela via da atmosfera, da matéria em transformação, das figuras indizíveis, do sonho e da imaginação, é no trabalho de Paulo Nazareth que ele encontra sua formulação mais direta. Um registro fotográfico traz dois meninos indígenas. Um deles porta um cartaz de papelão com uma frase escrita à mão: DINHEIRO ACABA. A imagem tem a contundência imediata do documento, mas opera em duas chaves simultâneas: é denúncia e é, ao mesmo tempo, um aforismo poético e sagaz, uma sentença que tanto constata quanto profetiza o fim de um sistema. À primeira vista, a obra parece um contrassenso com tudo o que a exposição propõe. Mas é justamente no olhar do menino e na inteireza com que sustenta o cartaz, que reside, talvez, o mais verdadeiro dos olhares serenos sobre o mundo e, portanto, sobre todos nós.

Obras
Vistas da exposição