Soft Ground Laís Amaral, Vasco Futscher, Marcius Galan, João Maria Gusmão, Cristiano Lenhardt, Anne Lefebvre, Artur Lescher, Daniel Steegmann Mangrané, Ernesto Neto, Rivane Neuenschwander, Damián Ortega, Lygia Pape, Santídio Pereira, Solange Pessoa, Pau
A Paisagem Devolve o Olhar
O que significa olhar para uma porção do mundo e achá-la bela, comovente, distante, familiar, acessível ou estranha? Que tipo de relação se estabelece quando sentimos prazer, desejo ou pertencimento diante de uma vista? Esses afetos nascem do reconhecimento, da posse, da saudade ou da sensação de sermos acolhidas por aquilo que vemos? E o que acontece quando a paisagem devolve o olhar, quando se recusa a ser uma superfície e é aceita como presença viva, dotada de uma história passada e futura?
Na tradição ocidental moderna, a paisagem foi inventada para enquadrar o mundo. Uma paisagem era uma vista organizada a partir de uma posição determinada. Implicava um horizonte, um olhar e uma distância a partir da qual o mundo podia ser configurado. Artistas contribuíram para isso ao usar a pintura para transformar a terra em imagem. A cartografia abstraiu territórios em superfícies. Os relatos de viagem, o paisagismo, os regimes de propriedade e as descrições coloniais ajudaram a converter lugares em cenas a serem admiradas, percorridas, classificadas e possuídas. O olhar colocava-se diante do mundo, comovido por sua beleza ou força, mas permanecendo separado dele pela própria estrutura do olhar.
A história das imagens da terra é inseparável das formas de propriedade e extração. Perceber a terra como paisagem significa, muitas vezes, vê-la como algo organizado para o olhar, desprovido de história, disponível para ser consumido e apropriado. Campos tornam-se vistas. Florestas tornam-se cenários. Rios tornam-se linhas numa composição. Animais, plantas, pedras, ventos, águas e solos surgem como figuras dentro de uma imagem, mantidas em conjunto pela posição de quem observa. A paisagem torna-se, ao mesmo tempo, íntima e distante: algo que se sente, se deseja e se recorda, enquanto permanecemos protegidas daquilo que ela exige.
Essas questões adquirem uma urgência particular em Comporta, um lugar cuja imagem foi muitas vezes reduzida à promessa de quietude: areia branca, pinheiros, arrozais, casas baixas, longos horizontes e um ritmo mais lento da vida de verão. Para quem a visita, Comporta é uma espécie de refúgio da história. No entanto, essa aparente calma é atravessada por várias camadas. Esta porção do baixo Sado inscreve-se numa história antiga. A presença humana na região remonta a comunidades mesolíticas que viviam da pesca, da coleta de mariscos, da caça e da obtenção de alimentos nas zonas úmidas. Com o passar do tempo, o Sado tornou-se um corredor de comércio, produção de sal, agricultura e controle territorial, ligando o estuário às rotas mediterrânicas e à cidade fortificada de Alcácer do Sal. Essa história mais remota carrega também formas de violência que a beleza atual da paisagem pode facilmente obscurecer. A partir do início da modernidade, a bacia do Sado foi marcada pela produção de sal, pela agricultura e pelo cultivo do arroz, atividades que dependiam de trabalho árduo e, em diferentes momentos, de pessoas africanas escravizadas.
Falar de água, campos e arroz em Comporta é, portanto, falar ao mesmo tempo de adaptação ecológica e de desigualdade social. A paisagem nunca foi simplesmente natural. Os arrozais carregam uma memória de trabalho intensivo e repetitivo. As dunas registram o vento e a erosão. O estuário abriga aves, peixes, sapais, lodaçais e ritmos de maré. A beleza de Comporta nunca esteve fora da história. Foi construída por meio das relações entre rio e oceano, terra e propriedade, trabalho e lazer, cultivo e vulnerabilidade.
Hoje, essas tensões mais antigas encontram novas tensões. Comporta tornou-se um dos destinos litorâneos mais desejados da Europa, e sua aura de simplicidade foi convertida em valor imobiliário, consumo sazonal e formas controladas de autenticidade. O turismo e os investimentos trouxeram visibilidade e atenção cultural, mas também intensificaram as pressões sobre a moradia, a vida local, os ecossistemas e o acesso. O que é comercializado como silêncio pode se tornar exclusão. O que é descrito como preservação pode também produzir deslocamento. A paisagem que parece aberta e acolhedora é cada vez mais atravessada por forças econômicas que determinam quem pode permanecer, quem pode trabalhar, quem pode visitar e quem pode chamar esse lugar de lar.
O título Soft Ground [Solo Macio] dá forma a essa condição. Um solo macio recebe pegadas, água, sementes, construções, ruínas, raízes e memórias. Ele também registra pressões. Em Comporta, o solo é uma condição literal de instabilidade. Enchentes recentes, tempestades, erosão costeira e o aumento das temperaturas tornaram visíveis as mudanças ambientais, enquanto a especulação e as economias sazonais reconfiguram o terreno social. A crise é, ao mesmo tempo, ecológica, social e política. Ela se manifesta na água e na areia, na moradia e no trabalho, na infraestrutura e nos ecossistemas, no frágil equilíbrio entre aquilo que é protegido e aquilo que é consumido. É nesse ponto que a paisagem já não pode mais ser compreendida como uma vista passiva.
Em paralelo, e nos últimos anos, em sintonia com perspectivas indígenas, artistas e pensadoras passaram a questionar essa distância herdada. Perguntaram-se de que maneira a percepção muda quando o mundo deixa de ser entendido como uma vista e passa a ser compreendido como uma comunidade de agências. David Abram escreveu de forma contundente sobre a percepção como um acontecimento recíproco, uma forma de participação por meio da qual os corpos são afetados por aquilo que encontram. Para ele, o mundo mais-que-humano é animado, expressivo e sensorialmente entrelaçado conosco. Relacionar-se com um lugar é entrar em relação com seus seres, sons, ritmos e texturas. A pesquisa de Vinciane Despret sobre pássaros oferece outro modo de desfazer a ideia de território como posse fixa. Ao acompanhar como as aves cantam, fazem ninhos, cortejam, defendem, improvisam e compõem seus mundos, a filósofa mostra que o território é menos um espaço delimitado do que uma prática de expressão. Ele é feito de gestos, chamados, repetições e relações. Um pássaro performa um território, escuta-o para que ele exista, responde aos outros dentro dele, e o modifica por meio do canto e da presença. Essa compreensão propõe que o mundo é construído por relações, por formas de sintonia e atenção, e que o pertencimento nunca é passivo. É uma atividade, uma negociação contínua entre corpos e lugares.
Olhar para Comporta a partir dessa perspectiva é perguntar de que modo estamos implicadas nela. Que histórias tornaram possível esta vista? Que formas de trabalho a moldaram? Que espécies a habitam? O que foi silenciado para que ela pudesse parecer pacífica? Que formas de cultivo, migração, extração, cuidado e perda estão inscritas em sua superfície? O prazer de olhar não desaparece. Ele se torna mais complexo. A beleza torna-se inseparável da responsabilidade.
A paisagem devolve o olhar quando se recusa a ser consumida como atmosfera. Ela devolve o olhar por meio de inundações, erosão, calor, canto dos pássaros, trabalho, lama, sal, insetos, ervas daninhas e da persistência lenta daqueles que permanecem. Ela nos pede menos certeza em relação à nossa distância. Ela nos pede que compreendamos que toda vista é também uma relação, e que toda relação carrega consequências. Estar diante de uma paisagem é também estar em seu solo macio. Toda vista traz uma demanda: sentir a presença do mundo sem convertê-lo em posse.
– Filipa Ramos (traduzido para português do Brasil por Adriana Francisco)
