membrana Anna Livia Taborda Monahan
Energia primeva. Crepúsculos flamejantes, espaços liminares e zonas indiscerníveis; lâmpadas, raios e rajadas solares; escamas e exoesqueletos. Tudo que nasce, brota, eclode, depois abocanha, devora. Explosão, ruptura e êxtase. O que estava dentro vira do avesso, torna-se fora. Tudo que antes abraça e separa, logo se rasga. O que era vida, vira morte: se converte, reinventa, renasce mais forte.
Em membrana, Anna Livia Monahan cria um campo pictórico de cores fortes, atmosferas densas e cenas insólitas marcadas por ciclos de transformação. Aqui, o termo não remete a uma estrutura biológica específica, mas a um princípio. Refere-se à interface em que acontece a relação, a troca e a tradução entre o corpo e o meio; ao invólucro tênue que separa e conecta, que envolve e expõe; aos limites que demarcam a fronteira e a transição. Em suas composições, superfícies frágeis e processos extremos operam uma contraposição fundamental. Aves e ovos, artrópodes, a crosta terrestre e tecidos translúcidos simbolizam a tensão inerente ao limiar e à metamorfose. São elementos que emergem como formas sensíveis, suspensas no instante anterior à fratura, à transmutação.
Sua pesquisa inicia-se na observação empírica e na assimilação do conhecimento de forças naturais. Seu interesse principal está nos mistérios da energia vital instalada no tempo geológico, que irrompe nos nascimentos, que percorre a cadeia alimentar e que se transfere de uma fase a outra. Nesse sentido, sua prática é guiada por um olhar que disseca, que perfura camadas, que insiste na espessura da matéria. A pintura age como corte de revelação: cada imagem sugere uma membrana prestes a se romper, não como gesto violento isolado, mas como passagem inevitável entre fases.
O tempo que emerge dessas cenas não é único nem linear: é impreciso e impermanente. Cada evento terreno, mesmo que em pequena escala, conecta-se à dimensão cósmica. Passado e futuro se encontram no horizonte, de modo que toda forma carrega em si a memória da terra e do universo, bem como o caráter mutável de tudo que existe, antecipando o que virá. Nesse sentido, em suas pinturas, a luz não é apenas iluminação: é a força que gera, mantém e destrói. É uma luz que arde, vela e revela, num dramático jogo de sombras. Em muitas obras, o clarão centraliza a composição e organiza os objetos ao redor, criando um balanço entre atração e risco. Há sempre a erupção em potencial, a anunciação do transe, e criaturas momentaneamente estáticas diante de um acontecimento maior: como se o mundo respirasse fundo antes do impacto.
Essa dinâmica é acentuada pelas paisagens amplas e vazias. Diante de horizontes despovoados, os seres aparecem como indivíduos à mercê de sistemas maiores. Nessas pinturas, o vazio nunca é ausência, mas terreno existencial: um espaço onde o olhar se alonga e a consciência de si se intensifica. Nessa vastidão, um evento natural – um pôr do sol vibrante, uma luminosidade por entre as nuvens, um bicho trocando de pele, um animal devorando outro – pode tornar-se paisagem interior de quem contempla, marcando a retina e a memória, despertando emoções e sensações.
A materialidade da pintura reforça essa experiência metafísica. Saltam os contrastes, e o sgraffito, que expõe estratos anteriores, faz com que o próprio plano pictórico incorpore a lógica da pele, da crosta. Pratas e dourados surgem como luz não branca, cintilante, quase mineral. Transparências obtidas por veladuras finas fazem com que asas, escamas e carapaças pareçam atravessados pelo ambiente. O formal não ilustra o poético – ele é o próprio campo em que a poesia se constrói, entre o claro e o escuro, entre a revelação e o mistério.
Há, nessas imagens, um equilíbrio entre delicadeza e brutalidade, entre glória e derrocada. A eclosão da cigarra, o pássaro que emerge do ovo, a borboleta pinçada pelo bico de uma ave, um peixe dilacerado sob a água. Ainda que influenciada pela riqueza das fábulas, Anna Livia não idealiza a natureza nem a instrumentaliza como alegoria moral; ao contrário, amplia seu caráter estranho, surreal, tornando visível o quanto esses fenômenos nos afetam emocional, psicológica e fisiologicamente. As pinturas provocam um fascínio inquieto, produzindo sensações físicas – um frio na espinha, uma pontada, uma contração – ao mesmo tempo em que preservam uma dimensão contemplativa, magnética e silenciosa. Cada signo é a um só tempo disparador sinestésico e chave de imersão.
A obra da artista funciona como um dispositivo de alta voltagem que aproxima o humano do familiar desconhecido – o assombro existencial que nos cerca e nos compõe. Se há em seu trabalho a aspiração a uma nova realidade, é pela intensificação daquilo que já existe. Ao sublinhar o caráter fascinante, estranho e febril do mundo, esses registros falam da nossa percepção, da busca pelo que nos escapa, e sobre como conferimos sentido à existência, projetando metáforas e construindo narrativas a partir do que encontramos. É nesse gesto que se forma um tecido simbólico, sempre instável e em mutação, capaz de dar tônus à vida.
– Germano Dushá
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O trabalho de Anna Livia explora a tensão entre a existência humana e as forças naturais, onde ordem e caos se alternam e entrelaçam. Suas composições combinam pintura a óleo e guache com elementos escultóricos, desenvolvendo séries que se desdobram a partir de um núcleo comum: estudos anatômicos, iluminuras, pinturas pré-renascentistas e imagens que emergem de experiências vividas e do inconsciente.
As composições apresentam criaturas estranhas em suspensão, como se aguardassem um acontecimento maior. A justaposição de perspectivas em camadas revela a complexidade contida em paisagens, seres vivos ou ideias, evocando um olhar quase científico que busca o que está além da superfície.
O contraste entre revelação e mistério também está presente na plasticidade da obra. Suas pinturas ganham vida na interação entre tons vibrantes e terrosos, sempre marcados por contornos gráficos que contrastam com camadas sobrepostas de tinta sobre fundos de gesso colorido. As cores emergem pelos sulcos do sgraffito, técnica que cria uma ponte entre pintura e escultura.
Ela explora representações de animais estranhos, vivendo oniricamente em um terreno atemporal, muitas vezes deserto. Ao fundir sonho e realismo, destaca o mistério que existe dentro e fora de todas as coisas.
Anna Livia Taborda Monahan (n. 1997, Nova York, EUA) vive e trabalha no Rio de Janeiro.
As exposições individuais da artista incluem membrana, Mendes Wood DM, Casa Iramaia, São Paulo (2026); Avifauna Imaginária, Espaço Sérgio Porto, Rio de Janeiro (2024). Adicionalmente, seu trabalho foi incluído em exposições coletivas como Fartura, Luisa Strina, São Paulo (2025); Remanso, Mendes Wood DM, Casa Iramaia, São Paulo (2025); Babirussa, Rio de Janeiro (2025); 31st MAJ, Sesc Ribeirão Preto, Ribeirão Preto (2024).
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Anna Livia Taborda Monahan, O Futuro, 2026 -
Anna Livia Taborda Monahan, Caranguejo e ovo, 2025 -
Anna Livia Taborda Monahan, Peixe-espelho, 2025 -
Anna Livia Taborda Monahan, Dois peixes, 2025 -
Anna Livia Taborda Monahan, Geração de luz, 2025 -
Anna Livia Taborda Monahan, Alimentação, 2025 -
Anna Livia Taborda Monahan, Formigas e água, 2025 -
Anna Livia Taborda Monahan, Luz 1, 2026 -
Anna Livia Taborda Monahan, Luz 2, 2026 -
Anna Livia Taborda Monahan, Luz 3, 2026 -
Anna Livia Taborda Monahan, Luz 4, 2026 -
Anna Livia Taborda Monahan, Luz 5, 2026 -
Anna Livia Taborda Monahan, Luz 6, 2026 -
Anna Livia Taborda Monahan, Luz 7, 2026 -
Anna Livia Taborda Monahan, Luz 8, 2026 -
Anna Livia Taborda Monahan, Cupins, 2025 -
Anna Livia Taborda Monahan, Embrião, 2023 -
Anna Livia Taborda Monahan, Demolição, 2025 -
Anna Livia Taborda Monahan, Batalha, 2026 -
Anna Livia Taborda Monahan, Lagarta de fogo, 2025 -
Anna Livia Taborda Monahan, Cigarra, 2025 -
Anna Livia Taborda Monahan, Esperança, 2025
