Voice Leading Peter Shear
Em um mundo saturado de estímulos visuais e aparelhos que concentram uma quantidade ilimitada de imagens, Peter Shear se debruça, literalmente, sobre a tela para lidar com a multiplicidade da prática. Assim, releva aos poucos e de forma progressiva um valor simbólico, que agrega significado à medida em que a imagem é criada. Seu trabalho é contínuo e imprime ação – ora invariável, ora em descanso –, sem receita ou determinação que conduza a um resultado fechado e imutável. É como se, ao revelar parte do processo de tomada de decisão e deixar espaço para o que ainda está por vir, a obra se abrisse para o repertório de imagens que cada espectador traz consigo.
Como acordes que ora se complementam, ora dissonam, as obras de Voice Leading foram reunidas a partir da percepção do artista de que havia, entre suas pinturas, muitos pares. Motivos que insistiam em reaparecer e retornavam, a cada vez, um pouco distintos, dão origem a uma espécie de progressão linear entre as obras, seja pelas cores, gestos, composições ou formas, favorecendo mutualidade e fluidez. Termo da teoria musical, voice leading (condução de vozes) descreve o modo como cada linha melódica se move de forma suave e linear de um acorde ao seguinte.
Displacement e Tempting Ideas (todas as obras de 2026), por exemplo, trazem pinceladas verticais bem demarcadas, que interrompem a linearidade da paisagem e acrescentam uma nova possibilidade de leitura e composição. O artista tem recorrido, ainda, a trabalhos anteriores como ponto de partida para novas pinturas, seja para se afastar de uma composição, aproximar-se de um detalhe ou salvar um aspecto interessante que não funcionou em outra tela.
Ao levar para a pintura o registro de um momento no tempo, ou de diferentes momentos reunidos, Shear registra o movimento sob a superfície e o torna explícito ao observador, como uma forma de interlocução e de conexão com o outro. Embora suas pinceladas muitas vezes sugiram um plano abstrato, o artista admite que sejam lidas de forma figurativa; recentemente, tem se permitido conviver com essa legibilidade e dar a tela por finalizada mesmo quando ela se mostra mais reconhecível.
Em Losing Streak, Peter Shear constrói, em suas palavras, “uma imagem perigosamente sentimental”, a partir de linhas horizontais em tons de azul claro e escuro, cinza e branco que remetem a uma paisagem. No espaço de cor mais clara, duas linhas verticais lembram figuras humanas. Essa ambiguidade entre paisagem e figura desperta em Shear certa vulnerabilidade diante de uma possível leitura equivocada, o que o deixa exposto a interpretações imprevisíveis – uma perspectiva que lhe desperta interesse e o leva a manter o resultado, em parte para observar como as pessoas reagem a ele
Os títulos acrescentam um outro estrato à sua prática. Ao estabelecer com a imagem uma relação deliberadamente oblíqua, Shear brinca com a linguagem verbal e coloca a si mesmo e ao espectador em uma posição desconcertante, como que fora de prumo. O artista anota palavras e frases ao longo dos dias que lhe parecem evocativas ou poéticas e, ao montar uma exposição, volta a essas anotações com cuidado, avaliando o que combina com o quê. Vindas dos universos mais distintos, como a cultura, o mundo financeiro e a botânica, essas palavras atuam como uma fresta de luz que torna cada obra mais intrigante ao mesmo tempo em que não apresentam uma analogia a figuração. Em Match, um elemento composicional singular percorre a parte central da tela em diferentes tons de rosa, e dialoga com o significado da palavra, cada vez mais presente no mundo virtual, sobretudo nos aplicativos de namoro.
Para Shear, o seu léxico visual e verbal não tem valor de uso além daquilo que o observador lhe traz, funcionando como uma espécie de fonte renovável de energia, que depende do outro para despertar o que lhe é familiar e o que pode parecer estranho ou novo. Trabalhando com múltiplas possibilidades, o artista deixa que as obras se desenvolvam quase sozinhas, enquanto tenta “sair do caminho” – elementos mudam inclusive de orientação ou são deixados de lado. Shear, em suas digressões, presta atenção a tudo o que está ao seu alcance, sem perder de vista a distração e a quebra de seus próprios acordos que, por fim, mantém sua obra ressoante.
