Travessia Patricia Leite
A nuvem rosa de Paris
O olhar de Patricia Leite é daqueles que contaminam. Quando ela pede a seus amigos que lhe enviem fotografias que possam servir de inspiração para suas pinturas, não se trata de adotar o ponto de vista deles, mas de compartilhar com eles sua maneira de olhar o mundo. Como sua obra é uma daquelas com as quais eu vivo e penso, muitas vezes a visão de um céu ao amanhecer, de um galho cortando o céu, de uma espreguiçadeira abandonada em um terraço me fazem pensar nela, mesmo que eu não esteja entre aqueles e aquelas que lhe enviam suas imagens.
No início dos anos 1980, Patricia Leite participou de um movimento de retorno à pintura que atravessou o Brasil e o mundo. Sua pintura desse período revela influências que vão de Klee a Volpi. Abstrata, orgânica e gestual, sua pintura aproxima-se do conceito de ‘geometria sensível’, frequentemente utilizado para caracterizar a produção construtivista na América Latina [1].
Em seguida, Patricia Leite desapareceu da cena artística durante quinze anos para se dedicar à invenção de uma linguagem verdadeiramente sua. Instalou seu ateliê em casa, com grandes janelas abertas com vista para a montanha e para a cidade de Belo Horizonte. Algumas pinturas desse período testemunham a passagem progressiva da abstração à imagem, mas, sobretudo, do aparecimento de um ponto de encontro entre o mundo, a pintura e aquela que pinta.
A obra emblemática dessa chegada ao ponto de inflexão de seu trabalho data de 2003 e se chama Barnett Newman. Sobre um painel de madeira não tratado, Patricia Leite aplica inúmeras camadas de tinta a óleo diluída até obter uma cor profunda, que parece iluminada por dentro. O terço inferior da tela é amarelo claro, separado da parte superior azul celeste por um dégradê de azuis mais escuros. As linhas que delimitam cada elemento são ligeiramente irregulares.
A verticalidade espiritual e interior de Barnett Newman tornou-se uma linha do horizonte, suas superfícies esotéricas, uma praia esmagada pelo sol, sua gestualidade, as irregularidades que dão vida ao mundo natural. Patricia Leite devorou Barnett Newman - e todos os outros com quem aprendeu – para, em seguida, desaprender. Ela inventou seu próprio espaço na pintura, conseguindo combinar questões formais e perspectiva existencial.
Ao horizonte igual da praia, sobrepõem-se um ramo de palmeira que despenca em primeiro plano, a espuma das ondas ou rochas. A composição deixa sempre muito espaço livre para grandes planos de cor e para as formas: luas, pássaros ou estrelas, que evocam mais do que representam, surgem raramente no centro da pintura. Passamos da aurora ao crepúsculo, do crepúsculo à noite.
Patricia Leite utiliza a cor como um significante. É ela que sustenta a carga emocional da pintura. É pela cor que Patricia Leite consegue apreender os momentos mais fugazes e mais lancinantes - aqueles que gostaríamos de lembrar quando é sempre tarde demais.
Faz todo sentido que a obra de Patricia Leite seja apresentada em Paris, na Place des Vosges, porque ela me parece ter muito em comum com a de Marcel Proust, um dos escritores que melhor descreveu a cidade. Proust, que construiu seu trabalho com base na memória involuntária, e expressou melhor do que ninguém o prazer que não está nem no presente nem no passado, mas no encontro fortuito entre os dois. Algo que, comum ao passado e ao presente, é muito mais essencial do que ambos. "Mas essa descoberta que a arte poderia nos obrigar a fazer, não seria, no fundo, a do que temos de mais precioso, e que habitualmente permanece ignorado de nós para sempre, nossa verdadeira vida, a realidade tal como a sentimos e que difere tanto daquilo em que acreditamos que somos tomados de uma felicidade imensa quando o acaso nos traz dela a verdadeira lembrança ? [2]. "
As obras de Patricia Leite possuem justamente a capacidade de nos conectar a tais epifanias – prazerosas e comoventes ao mesmo tempo. Os lusófonos chamam isso de saudade, e Fernando Pessoa é seu poeta incontestável: "Passo numa rua. De uma padaria sai um cheiro a pão que nauseia por doce no cheiro dele : e a minha infância ergue-se de determinado bairro distante, e outra padaria me surge daquele reino das fadas que é tudo que se nos morreu[3]. "
Os tons de rosa do céu de Minguante | Waning 2026, (todas obras deste ano), assim como a aurora rosa e cinza de Travessia II | Crossing II, a tarde azul das 17 : 00 horas, funcionam como conectores entre a memória da artista e as nossas.
Patricia Leite é brasileira, e sua obra reflete isso tanto em sua história quanto em seus temas[4]. Quando pinta Paris, Nuvem rosa de Paris| Paris Pink Cloud, ou a Capela do Rosário em Vence, Vitral (inspirada na Capela do Rosário), ela os pinta do mundo onde ela moldou seu olhar, ela sempre os pinta de Belo Horizonte.
– Anne Pontégnie
[1] . Essas informações provém do texto de Rodrigo Moura, "Feira Moderna – As Pinturas de Patricia Leite”, in Patricia Leite, Olha pro céu, meu amor, Editora Cobogó, 2019.
[2] . Marcel Proust, Em Busca do tempo Perdido, O Tempo Redescoberto, volume 7, trad.
[3] . Fernando Pessoa, O Livro do Desassossego, Companhia das Letras, 2023.
[4] . Sobre esse assunto, a citação de Tom Jobim utilizada por Rodrigo Moura no texto citado acima: "Sou brasileiro, faço música brasileira, não por questão de nacionalismo, mas porque não sei fazer outra".
