Cantaria Daniel Jorge
A Mendes Wood DM tem o prazer de apresentar Cantaria, primeira exposição individual de Daniel Jorge em São Paulo. Ocupando o galpão da Barra Funda, a mostra reúne obras inéditas entre esculturas, relevos de parede, instalação e performance, e é acompanhada por um ensaio do curador e pesquisador Carlos Quijon Jr.
O título da exposição nomeia o ofício do canteiro, o saber técnico da pedra talhada, que o artista aprendeu. A palavra guarda também o canto, som de ritual e de trabalho que acompanha quem talha. É desse cruzamento entre mão e voz, precisão e improviso, que a prática de Jorge se forma. Nas obras, a matéria não chega sozinha, mas acompanhada do trabalho, das trocas e das histórias que a trouxeram até ali.
Nascido em Recreio, no interior de Minas Gerais, criado na Curumau, na Zona Oeste do Rio de Janeiro, e radicado em Salvador, Jorge trabalha com o que essas três geografias lhe deram. A pedra-sabão, rocha densa e macia que serviu ao Barroco mineiro, chega ao ateliê por relações de troca com trabalhadores e pequenas comunidades de Minas Gerais. “Cada pedra carrega uma cadeia de corpos dentro da obra”, diz o artista.
Para Jorge a obra se dá em “testar até onde a matéria pode ir, e deixá-la responder”. A resposta está, por exemplo, no processo de pigmentação que o artista desenvolveu. O carvão, produzido no ateliê a partir de madeiras coletadas na cidade e ali queimadas, é veículo e reagente ao mesmo tempo; o pigmento azul é feito de resíduo gráfico adquirido em trocas com as gráficas da cidade. Misturado ao carvão e depositado sobre a pedra-sabão, o azul torna aparentes os quartzitos que a atravessam, e a superfície ganha pontos brilhantes que nenhum gesto poderia planejar. O piche, emulsão asfáltica que pavimenta as estradas e impermeabiliza as lajes das casas da periferia, entra como camada de negro profundo que pigmenta e adiciona uma fina camada de pele sobre a pedra.
O ferro coletado pelo artista ora carrega um processo natural de oxidação, ora é oxidado com sal, água e vinagre, técnica que pessoas escravizadas em fuga usavam para escurecer as ferramentas e camuflá-las na mata durante as travessias para os quilombos. Incrustadas na pedra entalhada, as pontas de ferro se erguem como torres, lanças, pregos. Não são ornamento: guardam a memória da fuga e organizam o trabalho, naquilo que o artista chama de “vingança simbólica”, exercida no gesto.
Sobre a pedra, Jorge realiza o gesto da escarificação: talhos, incisões, arranhões. Sua pesquisa reúne os muitos sentidos desse gesto, da marca corporal que, entre povos como Mursi, Iorubá e Nuba, inscreve pertencimento na pele, à quebra da casca da semente para que ela germine, até a incisão médica que vacina e cura. Nas superfícies escultóricas, o motivo reaparece em campos de perfurações, sulcos ordenados e protuberâncias. É o que conduz o artista ao queloide, a pele que insiste em retornar ao seu plano original: a matéria que até então era subtraída passa a ser aglutinada, criando pequenos relevos antropomórficos em algumas das peças.
Na exposição, as obras pendem do teto, encostam na parede, pousam direto no chão. Em Balanced Manumission (2024), esferas de pedra e correntes de ferro não estão presas a nada: apenas se equilibram, o peso de uma segurando o da outra. Em Boiar é entregar o peso à correnteza (2026), um bloco de pedra-sabão atravessado por grandes orifícios repousa no chão, circundado por uma corrente que carrega na ponta um cavalo marinho; o título ensina o gesto: boiar não é esforço, é entrega. E em Orifício (2024), uma pedra cinza e escarificada se incrusta numa parede como se a obra se tornasse um hospedeiro no espaço. O movimento se repete em diversos trabalhos da mostra: o artista borra o caminho que nos permitiria dizer se a forma resulta de uma subtração ou de uma adição de matéria.
A mostra culmina na instalação-performance Condição de Assentamento (2026), em que quarenta e nove pedras-sabão se distribuem pelo chão, ocupando uma sala inteira da galeria. Realizada antes da abertura da exposição, a performance faz do próprio trabalho do artista um modo de ocupar o espaço: Jorge divide as pedras com cunhas, pigmenta-as com carvão, piche e resíduo gráfico azul e realiza a escarificação. Encerrado o gesto, o artista se retira, e as pedras permanecem como constelação durante todo o período expositivo.
Para o artista, “o direito à subjetividade, ao deslocamento, à abstração, à ambiguidade, direitos sistematicamente cooptados de certos corpos no Brasil, são reivindicados aqui como infraestrutura material da obra, não como pauta”. O que se revela em Cantaria é uma prática sustentada por mais-velhos, trabalhadores e amizades.
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Daniel Jorge, Bússola leste (from the Era do Escambo series) | Bússola leste (da série Era do Escambo), 2026 -
Daniel Jorge, Untitled (from the Terrenos Acidentados series) | Sem título (da série Terrenos Acidentados), 2026 -
Daniel Jorge, Mergulho III (from the Terrenos Acidentados series) | Mergulho III (da série Terrenos Acidentados), 2026 -
Daniel Jorge, Mergulho II (from the Terrenos Acidentados series) | Mergulho II (da série Terrenos Acidentados), 2026 -
Daniel Jorge, Mergulho I (from the Terrenos Acidentados series) | Mergulho I (da série Terrenos Acidentados), 2026 -
Daniel Jorge, Boiar é entregar o peso a correnteza, 2024 -
Daniel Jorge, Alforria equilibrada (from the Corpo Geográfico series) | Alforria equilibrada (da série Corpo Geográfico), 2024 -
Daniel Jorge, Untitled (from the Terrenos Acidentados series) | Sem título (da série Terrenos Acidentados), 2026 -
Daniel Jorge, Untitled (from the Bandeiras e Assentamentos series) | Sem título (da série Bandeiras e Assentamentos), 2026 -
Daniel Jorge, Untitled (from the Era do Escambo series) | Sem título (da série Era do Escambo), 2026 -
Daniel Jorge, Untitled (from the Bandeiras e Assentamentos series) | Sem título (da série Bandeiras e Assentamentos), 2026 -
Daniel Jorge, Untitled (from the Era do Escambo series) | Sem título (da série Era do Escambo), 2026 -
Daniel Jorge, Incidência (from the Terrenos Acidentados series) | Incidência (da série Terrenos Acidentados), 2026 -
Daniel Jorge, Untitled (from the Bandeiras e Assentamentos series) | Sem título (da série Bandeiras e Assentamentos), 2026 -
Daniel Jorge, Untitled (from the Bandeiras e Assentamentos series) | Sem título (da série Bandeiras e Assentamentos), 2026 -
Daniel Jorge, Corpos em supressão (from the Corpo Geográfico series) | Corpos em supressão (da série Corpo Geográfico), 2024 -
Daniel Jorge, Untitled (from the Terrenos Acidentados series) | Sem título (da série Terrenos Acidentados), 2026 -
Daniel Jorge, Arquivo, Estrada, Rio I (from the Terrenos Acidentados series) | Arquivo, Estrada, Rio I (da série Terrenos Acidentados), 2026 -
Daniel Jorge, Arquivo, Estrada, Rio II (from the Terrenos Acidentados series) | Arquivo, Estrada, Rio II (da série Terrenos Acidentados), 2026 -
Daniel Jorge, Arquivo, Estrada, Rio III (from the Terrenos Acidentados series) | Arquivo, Estrada, Rio III (da série Terrenos Acidentados), 2026 -
Daniel Jorge, Arquivo, Estrada, Rio IV (from the Terrenos Acidentados series) | Arquivo, Estrada, Rio IV (da série Terrenos Acidentados), 2026 -
Daniel Jorge, Arquivo, Estrada, Rio V (from the Terrenos Acidentados series) | Arquivo, Estrada, Rio V (da série Terrenos Acidentados), 2026 -
Daniel Jorge, Arquivo, Estrada, Rio VI (from the Terrenos Acidentados series) | Arquivo, Estrada, Rio VI (da série Terrenos Acidentados), 2026 -
Daniel Jorge, Arquivo, Estrada, Rio VII (from the Terrenos Acidentados series) | Arquivo, Estrada, Rio VII (da série Terrenos Acidentados), 2026 -
Daniel Jorge, Elo pêndulo, 2023
