Affirmation Room – curated by Germano Dushá
Affirmation Room (Sala das afirmações) reúne uma constelação de artistas cujas práticas canalizam fenômenos intangíveis. A exposição parte da noção de catáfase, termo de origem grega que designa o uso de frases afirmativas para abordar ou descrever um tema ou objeto. A teologia catáfática, portanto, aplica o entendimento e a descrição do divino por meio de enunciados positivos. Para além de uma categoria estritamente teológica, o termo é aqui mobilizado para designar qualquer ato de afirmação do espiritual ou do metafísico por meio de construções positivas. Com diferentes linguagens e temporalidades, as obras reunidas engajam-se com a transcendência através da geometria, do gesto, da materialidade e da composição energética. O que emerge é um campo multidimensional, em que a forma se torna receptáculo para a projeção e o sentido.
A exposição articula a abstração modernista com experimentações contemporâneas, estabelecendo um diálogo entre o Neoconcretismo brasileiro e artistas internacionais cujas obras operam como condutores de forças invisíveis e ressonâncias imateriais. No final dos anos 1950, o movimento Neoconcreto surgiu no Brasil como resposta ao racionalismo e à objetividade do Concretismo, reivindicando uma relação mais sensorial e poética com a forma. Rejeitando a ideia da obra como objeto autônomo e puramente geométrico, os neoconcretos enfatizaram a subjetividade e a participação ativa do espectador. Suas obras eram proposições: veículos para a sensação e a emoção. Figuras fundamentais como Amilcar de Castro, Lygia Pape e Sergio Camargo aparecem na exposição ao lado de Rubem Valentim, cujos signos emblemáticos sintetizam a abstração geométrica com o simbolismo afro-brasileiro. As esculturas industriais e idealistas de Camargo, Pape e de Castro — que evocam dinamicamente quadrados, círculos e triângulos — propõem estruturas de ordem e percepção que se conectam com os Emblemas de Valentim, onde essas mesmas formas ascendem a partir de um circuito, ou mecanismo, de onde fluem forças. Se os neoconcretos afirmavam a experiência imaterial por meio do encontro corporal, o projeto de Valentim instaura um modo, paralelo mas distinto, de construção afirmativa por meio da transmutação de matrizes internas em formas visíveis; como escreveu em seu manifesto de 1976: “criando os meus signos-símbolos procuro transformar em linguagem visual o mundo encantado, mágico, provavelmente místico que flui continuamente dentro de mim”.
Essa constelação se estende ao século XXI com obras de Adriano Amaral, Advânio Lessa, Guan Xiao, Laís Amaral, Leah Ke Yi Zheng, Lucas Arruda, Paulo Nazareth, Torkwase Dyson e Wen Liu. Partindo de diferentes contextos, seus trabalhos exploram como o invisível, o inefável ou o extrafísico podem ganhar matéria e forma. Longe de serem inertes, essas obras vibram e emanam, habitando a fronteira entre o que se sente e o que não se pode nomear. Como um espaço polifônico de possibilidades simbólicas, a exposição congrega múltiplas visões, materialidades, técnicas e soluções formais. Tinta a óleo, bronze, acrílico, tecido, fibras naturais, resíduos animais, ícones religiosos e detritos tecnológicos se amalgamam em sistemas diversos de significação e linguagem material. Nesse sentido, a mostra evoca a o espírito de sítios ritualísticos heterodoxos, onde imagens de naturezas distintas coexistem sem hierarquia.
Das reflexões sagradas aos exercícios abstratos, das cosmologias afrodiaspóricas aos padrões geométricos, das transformações orgânicas aos futuros especulativos, os artistas de Affirmation Room compartilham o investimento na forma como portadora de energia, vibração e presença. As obras não representam o etéreo, elas o encarnam, dando contorno a forças que excedem a dimensão física, funcionando como instrumentos de mediação entre diferentes mundos. A galeria torna-se, assim, uma câmara de ressonância, um espaço conceitual de sintonia e invocação, uma sala de afirmações.
Germano Dushá
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Rubem Valentim, Emblema 1978, 1978 -
Laís Amaral, Partir em busca daquilo que se pressente em seu íntimo, muito além da mente, O iniciado., 2025 -
Adriano Amaral, Untitled | Sem título, 2025 -
Leah Ke Yi Zheng, Untitled (Light/Fusée), 2025 -
Lucas Arruda, Untitled (from the Deserto-Modelo series) | Sem título (da série Deserto-Modelo), 2025 -
Lucas Arruda, Untitled (from the Deserto-Modelo series) | Sem título (da série Deserto-Modelo), 2024 -
Rubem Valentim, Emblema 87, 1987 -
Lucas Arruda, Untitled (from the Deserto-Modelo series) | Sem título (da série Deserto-Modelo), 2025 -
Wen Liu, Ouroflora, 2025 -
Amílcar De Castro, Untitled | Sem título, 1990's -
Advânio Lessa, Untitled | Sem título, 2024 -
Rubem Valentim, Emblema 85, 1985 -
Lygia Pape, Serigrafia - tecelar, 1972 -
Paulo Nazareth, [Untitled, from Pemba series] | Sem título, da série Pemba, 2024 -
Advânio Lessa, Untitled | Sem título, 2024 -
Rubem Valentim, Emblema, 1978 -
Lygia Pape, KV 256 - prateado, 1961-1998 -
Adriano Amaral, Untitled | Sem título, 2025 -
Paulo Nazareth, Untitled [Divino series] | Sem título [série Divino], 2025 -
Paulo Nazareth, Untitled [Divino series] | Sem título [série Divino], 2025 -
Paulo Nazareth, Divino, 2025 -
Sergio Camargo, Untitled | Sem título, 1980's -
Guan Xiao, Silent Buttons, 2024 -
Torkwase Dyson, Black Quiet 2 (Bird and Lava), 2024 -
Guan Xiao, Hermes in 1999, 2023 -
Adriano Amaral, Untitled | Sem título, 2025 -
Wen Liu, Inarticulate Trace No.7, 2025
