Novas pinturas Paulo Monteiro

Apresentação

Entre uma curva e um retorno, Paulo Monteiro cria a partir do que permeia e conduz uma experimentação particular, lúdica e prazerosa. Suas Novas pinturas apresentam uma produção recente de pequenos formatos na Casa Iramaia compostas por cores que brincam entre si, formas envolvidas por outras, texturas que se constituem da transparência, da escuridão ou da ausência, e bordas que confundem o que está dentro, fora, à frente ou atrás. São novos desdobramentos do diálogo entre cor, forma e linha que o artista constrói desde o início de sua trajetória de forma sutil e espontaneamente. 

Desenvolvidas sobre linho ou madeira, as pinturas são compostas por formas que interagem entre si como uma dança em que não há um único condutor, mas uma profusão de maneiras de se conectar, atravessar e delimitar, sem ultrapassar o que o próprio artista entende como superfície. A sobreposição de planos, que não distingue figura e fundo, confere ao olhar do observador a mesma liberdade que Monteiro teve ao pintar, ora partindo de uma forma mais delimitada, ora explorando as camadas de cor e o modo como elas interagem com o fundo.  

Essa vivacidade é compartilhada no formato das madeiras que lhe servem de suporte: verticais, estreitas e compridas, elas remetem às esculturas de parede do artista e convidam a paisagem de Monteiro a se esticar e a explorar formas que saiam da linha do horizonte. As estruturas exploradas por Monteiro, em outro momento serviram de base para suas esculturas de mesa. O resultado são figuras que desenham linhas, acompanham as margens, as extrapolam ou se formam a partir delas. A pequena dimensão das telas as traz para ainda mais perto do artista, que as compõe em um gesto muitas vezes minucioso. Essa proximidade permite ao artista trabalhar, seja na parede, no colo, ou no cavalete, sem precisar se deslocar, como ocorre nas telas maiores, em que alcançar uma homogeneidade se torna quase impossível.   

Os longos traços sobre as telas, suas curvas e imprevisibilidade lembram desenhos e gravuras que o artista desenvolveu ainda nos anos 1990. O desenho sempre o acompanhou, desde o início de sua produção, nos anos 1970, mas nos últimos anos esse hábito se tornou menos frequente. Agora, Monteiro retoma o desenho sobre as telas antes de pintar, o que traz de volta um gesto e uma nova configuração para as pinturas que, ao mesmo tempo que realiza uma operação de escape, arrasta a cor e o traço de volta para o seu interior. 

A paleta de cores vibrantes varia entre tons quentes e frios, que promovem contrastes harmônicos, ainda que pareçam improváveis à primeira vista. Guiado por desejos de cor, o artista forma conjuntos que dialogam entre si por afinidade. Ao notar que há uma constância, porém, Monteiro muda de direção e parte para a combinação de cores distintas. Algumas pinturas são feitas com somente uma demão de tinta, permitindo que a luz do branco do fundo da tela ilumine a superfície, outras têm camadas incontáveis de cor, tornando-as profundas e mais impenetráveis. As possibilidades são infinitas e, para Monteiro, o limite está na saturação, na perda de uma ordem natural das coisas.  

As novas criações de Monteiro retornam com o que o percurso lhe trouxe, e cada volta abre um novo caminho, sem voltar ao mesmo ponto. Redescobrir e criar com os elementos que lhe são importantes, e até inconscientes, é o que sustenta sua prática e o que o diverte, cada vez mais, como artista. Para ele, “quando a gente gosta do que faz, a gente não foge de nós mesmos.”