Apresentação

Rosana Paulino tem constantemente confrontado o público com uma questão central: o que significa ser uma mulher negra no Brasil?

Há mais de uma década, Paulino, que já se dedicava à pesquisa sobre espiritualidade, passou a se interessar pelo crescente discurso em torno do poder feminino e das deusas. Questionando-se sobre o que exatamente isso abrangia e que tipo de arquétipos femininos refletia, ela realizou uma pesquisa para encontrar imagens de mulheres negras como figuras místicas de destaque na literatura disponível. Não encontrou nenhuma nas livrarias, já que muitos autores se recusavam categoricamente a abordar a abundante cosmologia matriarcal dos ritos e religiões afro-brasileiros. Isso contrastava fortemente com a profusão de imagens de mulheres negras retratadas em trajes coloniais ou em papéis degradantes que circulavam amplamente por bibliotecas, salas de aula e na cultura visual em todo o país. Para contrariar esse padrão e contribuir ativamente para uma nova cosmologia visual, Paulino dedicou uma parte significativa de sua produção a desenhos, pinturas, esculturas e instalações que resgatam a mulher negra brasileira da representação dominante. Em suas palavras: “Se ela não existe, o que acontecerá se a criarmos? Se a trouxermos à existência?” Ou seja, o objetivo não era a apropriação, “não simplesmente reproduzir os orixás ou reivindicar tradições como o candomblé, que respeito profundamente, mas não pratico – e sim abrir outro espaço, um espaço para a subjetividade das mulheres negras, para os arquétipos que permaneceram invisíveis, sem nome”.

Na busca por novas possibilidades de representação, a artista criou uma de suas séries mais influentes, Senhora das plantas, um conjunto de obras em andamento que se desdobra em desenhos e pinturas de figuras de aparência feminina com membros que se estendem como raízes de árvores, cabelos que crescem como folhas ou dedos que desabrocham em flores. Arquétipos, bastiões femininos, deusas ou guias passaram a marcar uma prática que aborda o período mais traumático da história colonial brasileira, ao mesmo tempo em que propõe um novo quadro emancipatório para superar seu legado. As Senhoras das plantas foram amplamente exibidas em todo o mundo, inclusive nas Bienais de São Paulo e de Veneza e como um mural de grande escala encomendado para o High Line Art, em Nova York. Esta última, intitulada A Criação das Criaturas do Dia e da Noite, ficou em exibição ao ar livre de novembro de 2024 a dezembro de 2025. Suas duas figuras imponentes crescem como árvores em meio à flora e à fauna, lado a lado em dois contextos – dia e noite –, reimaginando a dualidade entre vida e morte.

Para a primeira exposição individual de Rosana Paulino em Paris, intitulada Florescer a luz do Sol, sonhar a luz da lua, a artista dá continuidade a essa exploração temática das criaturas da noite e do dia, reunindo um conjunto de novas pinturas e desenhos de sua aclamada série. Cada elemento presente em sua tela carrega um simbolismo enraizado na tradição. As plantas que adornam essas figuras são frequentemente chamadas de “plantas de poder” devido ao seu uso generalizado como amuletos de proteção ou em rituais de purificação enraizados na tradição afro-brasileira e populares nos lares brasileiros. Muitas delas são conhecidas tanto por suas propriedades medicinais quanto por sua beleza, como o potencial calmante do mulungu, uma árvore ornamental brasileira e planta medicinal que desabrocha dos pés, seios e dedos da figura plácida sentada em Mulungu, da série Senhora das Plantas (todas as obras de 2026). Outras, como a trombeta-de-anjo, são temidas por uma beleza enganosa que mascara um veneno potente, tema da pintura noturna de mesmo nome. 

Essa comunhão com a natureza é essencial para a construção do mundo da artista, inseparável da natureza que transborda no Brasil. Em seu ateliê, nos arredores da metrópole de São Paulo, Rosana Paulino costuma refugiar-se no vizinho Parque do Jaraguá para lazer, observando e catalogando as abundantes espécies da Mata Atlântica que continuam a resistir ali, apesar do desenvolvimento urbano. Paulino faz uma referência a essa mesma capacidade de adaptação na vida de milhões de mulheres negras que sobreviveram à violência colonial. Suas figuras são um testemunho não apenas daquelas que sobreviveram, mas, principalmente, daquelas que continuam a prosperar. As filhas, irmãs, mães e avós que perseveram como “criaturas da floresta, como se estivessem encantadas”.   

Ao mesmo tempo, Paulino entende a natureza como uma faceta dupla, tão protetora quanto ameaçadora. Ela explora isso por meio de figuras que rastejam, ficam em pé, se ajoelham ou se agacham no domínio da natureza, cada uma com uma personalidade inteiramente própria. A dualidade da natureza encontra seu ápice em Comigo ninguém pode. Venerada na tradição afro-brasileira por suas propriedades protetoras e espirituais – e temida por suas folhas altamente tóxicas –, a planta é tema de uma extensa série de desenhos e pinturas na exposição. Ela também dá nome à exposição do Pavilhão do Brasil na Bienal de Veneza de 2026, para a qual Rosana Paulino foi selecionada para co-representar, em uma homenagem ao conhecimento preservado nos costumes afro-brasileiros.

O destaque da exposição é a experiência da noite e do dia, que se desenrola por meio de novas pinturas em grande escala. Por uma perspectiva, cenas diurnas com figuras semelhantes a árvores emergem tendo como pano de fundo uma luz abrasadora e avassaladora, típica do hemisfério sul. Dia: Estrela da Manhã ilustra o mito da criação por meio do toque e do cuidado de uma mulher negra como geradora de vida. Na parte inferior da tela, mais próxima das raízes, há uma figura feminina menor que acompanha a cena. Paulino resiste a explicações lógicas: “Às vezes me sinto quase como um canal, porque cada uma tem sua própria personalidade. Elas simplesmente surgem.” Em sua existência noturna, a figura imponente ganha vida, trazendo consigo o mistério e o lirismo da escuridão. Em Noite: Lua Cheia / Lua Crescente, o fundo escuro criado com camadas de tinta e tinta acrílica oferece a riqueza de uma noite quente de verão – seus animais, lendas tropicais, duas corujas-das-torres – sob o feitiço de uma lua cheia.

Para criar essas pinturas, a artista utiliza todo o seu corpo, ativando algo que “flui através de mim”. Trabalhando na tela deitada no chão, ela recorre a ferramentas improvisadas, como galhos, para dar textura e cor a áreas aparentemente inacessíveis. A tinta acrílica, diluída ou propositalmente deixada para manchar, cria uma textura robusta, tátil e única para cada pintura. Nesta exposição, Rosana Paulino propõe uma forma de resposta à sua própria pergunta persistente: as mulheres negras, enraizadas na terra que suas antepassadas reivindicaram, se levantam para criar novas possibilidades de emancipação.