Pequeno Mapa do Tempo Paula Siebra
o saijiki de paula
A chuva cai em riscos finos; travessões prateados que se chocam sobre a superfície quente das telhas de cerâmica, enfileiradas em ondas até o beiral. Dele pendem largas gotas, escorrendo uma atrás da outra em forma de lágrima, estalando tudo o que tocam. Trá-tá-tá. Plic…plic. Quase se ouve o som do repique e do gotejar, carregando consigo o anúncio: o ano aqui começa molhado.
Bem perto, em outra tela, folhas lanceoladas se sobrepõem em várias camadas, algumas iluminadas por um clarão, outras afundando na sombra. A paleta é inteira dourada-olivácea: ocres, verdes-musgo, castanhos e ouro, tudo numa mesma família tonal, de baixíssimo contraste, banhado por uma luz morna e filtrada, como a que atravessa o jardim depois da chuva. É preciso um instante para encontrar o caramujo – está no centro da tela, o corpo viscoso esticado como uma folha, a concha arredondada quase se confundindo com o desenho e a cor das que o cercam. Paula deixa-o afundar na folhagem, de modo que o olho tem de procurá-lo e, ao fazê-lo, refaz por conta própria a lentidão do seu passeio. No canto inferior, dois pontinhos brancos, duas florzinhas mínimas de quatro pétalas, são a única nota clara e nítida, quase como um respiro. Se notar, a trama da tela aparece por baixo da tinta, dando uma textura granulada, tátil, de superfície úmida. Não raro aqui o olho vira o próprio caramujo, atravessando devagar o mundo em close.
Em 2025, Paula Siebra passou três meses em Kyoto, atraída pela afinidade entre o estado de atenção que sua pintura produz e o modo como a cultura japonesa apreende a experiência do tempo. Ali, sob a temperatura do alto verão, rascunhou haikus com o monge Osawa Genka, pintou cigarras e lantejoulas de sol e publicou um pequeno livro. Há mais de mil anos, a cultura japonesa organiza o tempo em torno das estações, por meio do que se conhece como kigo, termo que situa o poema numa estação específica e convoca todo um clima afetivo. Num haiku, não se diz "é primavera"; antes escreve-se "flor de cerejeira", e a estação inteira se evoca, com suas associações de brevidade e renovação. Bashō, aliás, a coloca à mesa: ao pé da árvore, / até na sopa, na salada – / pétalas de cerejeira. Assim, a primavera é evocada por imagens de flores, pelo rouxinol-japonês ou pelo exuberante salgueiro verde. O verão vem sob a forma do pequeno cuco, das noites curtas e da lótus. O outono aparece nas folhas rubras, no orvalho branco, no capim-susuki. E o inverno no crisântemo, na lua gélida, na primeira garoa… Ao longo dos séculos, os poetas reuniram esses termos em almanaques chamados saijiki, verdadeiras enciclopédias afetivas da natureza, onde cada fenômeno encontra seu lugar no ciclo do ano. Mais que nomear a estação, o kigo pede um modo de olhar: o crisântemo branco — / fito-o com atenção: / nem um grão de poeira; de novo Bashō, para quem ver bem era já toda a arte.
Atravessada pela temporada nipônica, portanto, esta exposição apresenta o próprio saijiki da artista, seu pequeno mapa do tempo, agora adaptado ao contexto cearense, estado onde vive e nasceu. Mesmo por isso, o calendário que Paula organiza não obedece nem às quatro estações japonesas nem às quatro do hemisfério Norte, que nunca couberam no clima tropical semiárido. Suas divisões nascem de um tempo vivido: a chuva celebrada que abre o ano, a festa que a segue, o vento que se levanta no segundo semestre e a seca que o encerra. Um ano, portanto, que não começa em janeiro mas, digamos, na primeira água.
Passada a chuva, do Sábado de Aleluia ao São João, o Ceará entra na sua temporada de festas, com a fartura da roça e os pequenos trabalhos que a acompanham. Em Feijão florindo, as folhas arredondadas se amontoam como um tapete espesso, verde sobre a terra morna, e entre elas abrem-se as flores miúdas do feijoeiro, espécies de borboletas de um rosa desmaiado, de miolo amarelo, a coisa mais delicada dessa planta que sobretudo alimenta. Já Separando feijão recua para o gesto íntimo que vem depois: sobre um fundo quase branco, de vasto vazio, uma tigela de vidro guarda os grãos catados, enquanto as vagens repousam no alto e um punhado se espalha ao lado. Na tigela, alguns feijões aparecem mais vivos, boiando, e outros, mais opacos e baços, repousam no fundo. A diferença de luz entre um feijão e outro carrega o conhecimento de que o grão que sobe é chocho, enquanto o que afunda é o bom. Quem sabe renda um bom feijão verde cremoso.
Por séculos, a poesia sazonal no Japão foi um privilégio aristocrático, feita das mesmas imagens nobres pautadas na lua cheia ou na branca neve. Foi só com o haikai popular do período Edo que o almanaque se abriu para as coisas humildes. Por ali entraram finalmente no poema o dente-de-leão, o alho, a formiga, o feijão, "o amor dos gatos" e, nos saijiki modernos, até a cerveja e o beisebol noturno. A escala poética, que antes descia da lua, passou a subir do chão. Ninguém habitou esse chão como Issa, que ao caramujo dedicou seu conselho mais famoso: devagar, devagar, / sobe o Monte Fuji, / ó caracol. É dessa base larga da pirâmide que vêm os kigo de Paula. Coisas do quintal e da cozinha, tratadas com a mesma atenção que a tradição reservava ao sublime.
Pau de fita, a maior tela da mostra, ergue-se na vertical como um mastro: de um único ponto no céu noturno, cravado entre estrelas pálidas e douradas, descem fitas coloridas, vermelhas, azuis, ocres, verdes, que se abrem em leque até o chão de terra alaranjada, onde figuras miúdas dançam segurando suas pontas. É a dança das fitas das festas juninas, o rito de São João em que os corpos giram em torno do mastro trançando e destrançando as cores num tecido que se faz e se desfaz. Paula pinta a festa como um acontecimento cósmico; as fitas partem das estrelas, e a comunidade, lá embaixo, parece tecer o próprio céu. É a única tela em que a escala se inverte, o gesto humano coletivo ganha tamanho, quando tudo o mais na exposição quase cabe na palma das mãos.
Queima de Judas, por sua vez, guarda outro rito. Ao centro, o boneco de Judas, de cabeleira e barba, colete cinza e gravata, um braço pendendo mole em luva branca; ladeando-o, dois homens que se tornam meninos que o sustentam e o exibem antes do castigo. É o Sábado de Aleluia do sertão, quando o traidor de pano é surrado e queimado em praça, e a molecada o carrega pelas ruas. A festa, afinal, é também matéria de almanaque. Ao lado das flores, dos bichos e dos fenômenos do céu, o saijiki reserva uma de suas categorias às gyōji, as observâncias, sagradas e profanas, que pontuam o ano: são os festivais e procissões em que a comunidade se reúne para marcar a passagem do tempo com um gesto comum. Também os poetas as celebraram. Issa, do seu Ano-Novo: minha felicidade / neste ano que começa — / mais ou menos, medianazinha. Uma festa, ali, é tão sazonal quanto uma cerejeira.
Carnaúba e lua minguante é o avesso silencioso do arraial: sobre uma tonalidade azul-esverdeada, quase monocromática, a carnaúba se ergue esguia e um pouco curva, recortada em silhueta contra o céu; suas frondes abrem-se no alto em leques espinhados, como estrelas escuras, ou como o avesso noturno das fitas que explodiam no Pau de fita. À esquerda, baixa sobre os morros, a lua minguante; embaixo, a água parada de uma lagoa clara. A carnaúba é a "árvore da vida" do sertão, dela se tira cera, madeira, alimento, e já Euclides da Cunha a saudava como a planta que socorre o sertanejo, mas aqui ela apenas existe, reduzida a presença e paciência. Há nela ainda algo do noturno onírico de Rousseau, com sua folhagem chapada e sua imobilidade de sonho; algo do luar brasileiro de Tarsila, que já reinventara a paisagem tropical em campos de cor planos e formas solitárias; e algo, porque não, da gravura japonesa, sua silhueta escura sobre o fundo liso, o equilíbrio de massas claras e escuras e a quietude do recorte.
Passado junho, um vento firme se levanta do leste instalando a estação das férias e da contemplação vagarosa. Em Jangada ao vento do leste, o vento tem corpo: a vela amarela se enfuna, cheia, e a jangada inclina-se sobre o mar revolto, a proa erguida, a espuma batendo no casco alaranjado, tudo em desequilíbrio e iminência. É uma tela de risco, a embarcação está no limite entre singrar e emborcar. Importa lembrar que o jangadeiro é o herói plástico do estado ao menos desde Raimundo Cela, que fez da luz do litoral e do drama da jangada (a embarcação pega pela arrebentação, com homens e vela embaralhados num só turbilhão) o grande tema da pintura local. A jangada, no Ceará, é epopeia. Foi numa dessas travessias que os jangadeiros de Fortaleza velejaram até o Rio, em 1941, para reivindicar direitos, feito que Orson Welles quis filmar em It's All True e que custou a vida do jangadeiro Jacaré.
Mas o mar de Paula é também o das coisas miúdas que ele deixa na areia. Coisas do mar dispõe, sobre o dourado da praia e sob a renda branca da arrebentação lá no alto, uma coleção de achados: conchas, búzios, uma bolacha-da-praia, cacos de vidro fosco, pedrinhas coloridas, cada um isolado e exato como num mostruário. É quase um saijiki de bolso, não das estações, mas de uma tarde de maré baixa; inventário paciente de quem anda com os olhos no chão molhado, recolhendo o que o vento e a água trouxeram. A mesma atenção do caramujo, agora à beira-mar.
E, no descanso do meio do ano, a própria artista aparece. Autorretrato penteando o cabelo mostra Paula de pé junto a uma janela, o braço erguido a pentear os fios, o corpo e a luz feitos de uma miríade de pequenos toques que fazem a tela inteira vibrar, quase desmanchar-se em claridade. É um interior quieto, de intimidade suspensa, e nele reverbera um gesto que a pintura persegue há séculos, a mulher ao espelho, absorta em si, e que o ukiyo-e fez motivo maior, com suas beldades a compor o longo cabelo negro diante do espelho. Aqui, olhando-se, a artista também se retrata olhando: o autorretrato de quem faz da atenção o seu ofício. À sua volta, o meio do ano se espalha em coisas de passagem: as Mangas numa bacia de ágata, redondas e maduras, boiando na água de uma vasilha translúcida, fruta do calor guardada como quem guarda um frescor; e as folhas de cajueiro apanhadas no colo, verdes ao lado de amarelos e ferrugens – o que o sertão tem de mais próximo do momiji, a folhagem rubra do outono japonês, aqui recolhida num regaço.
Então o vento amaina, as chuvas ficam rarefeitas e o sertão entra na sua estação mais longa: a seca. E com ela, o desejo de sombra. Em Sombras de nuvem sobre o mar, pequeninos toques de azul e creme vibram enquanto manchas frias atravessam o alto, sombras que estão e não estão, passam sem deixar marca. A sombra das mangueiras pinta o frescor buscado sob as árvores: as copas densas e escuras se enfileiram sobre um chão em brasa, alaranjado de sol e de folhas caídas, e entre elas descem faixas de luz e de sombra, o refúgio no meio do dia quente. É a estação em seu repouso, ou melhor, o corpo que se recolhe à frescura. Ninguém o exerce melhor que a Menina deitada na rede, que se estende numa curva branca de ponta a ponta da tela, o rosto pousado no braço dobrado, os olhos abertos a nos fitar, enquanto um gato preto monta guarda no chão. Atrás, uma árvore de copa redonda, folha a folha desenhada, devolve aquela frontalidade de sonho da pintura popular, o mundo imóvel e um tanto mágico em que a reclinada de toda a história da pintura reaparece virada moça de quintal. E a mesma paciência do descanso está no tecido: a rede, feita nos gigantes teares da cidade de Jaguaruana, tem sua matriz ornamental pintada ponto a ponto — aquela cuja urdidura as tecelãs cearenses penteiam e cruzam com milhares de fios, hora após hora, num dos ofícios mais antigos do estado. Paula reproduz a trama minúscula fio a fio, como quem reconhece na rendeira uma parente do próprio fazer.
Passado o repouso, a seca mostra o osso. Imbuzeiro na seca leva a paisagem à sua nudez: um campo inteiro de ocres e dourados ressequidos ocupa quase toda a tela, atravessado no primeiro plano por galhos pretos e esbranquiçados, retorcidos, sem uma folha. No meio dessa aridez, uma única copa verde resiste: o imbuzeiro, que guarda água nas raízes e permanece vivo quando tudo em volta secou, alimentando gente e bicho no rigor do sertão. Paula concentra a estação num só contraste: o vasto campo morto e a mancha teimosa de verde; economia de meios de que só a seca é capaz.
Mas a virada tem seus arautos. Em Formigueiro se preparando para a chuva, uma fileira de formigas atravessa o campo ressequido rumo ao ninho, carregando suas cargas sob o céu que muda: é o bicho mínimo, profeta, que sabe da água antes de nós. No saijiki, o que separa um simples kigo de um kidai, o tema poético pleno, é o hon'i: o núcleo de associações consagradas que uma imagem carrega. No repertório japonês, os gansos que partem no outono, por exemplo, dizem a solidão; o orvalho, as lágrimas; a garoa fria de inverno, a transitoriedade de todas as coisas. Issa, diante do mundo, resumiu esse hon'i do efêmero num só verso: este mundo de orvalho / é um mundo de orvalho, / e no entanto… e no entanto.
Eis o que faz A flor do mandacaru ao encerrar nosso percurso. Sobre um fundo noturno, num azul esverdeado de água funda, erguem-se escuros os braços colunares do mandacaru. De um deles brota a grande flor: uma estrela branca de pétalas pontiagudas, aberta em plena escuridão, com um miolo denso de estames finos e amarelados que parece guardar luz própria. Em torno dela a tinta se aclara num halo esverdeado, como se a própria noite recuasse para deixá-la brilhar. Floresce à noite e dura uma única madrugada: abre-se ao escuro, entrega seu perfume a algum morcego ou mariposa de passagem, e ao amanhecer já murcha. É o hon'i do sertão. Diz a resistência do que floresce vigoroso na aridez e diz, sobretudo, a promessa, porque o mandacaru em flor, símbolo máximo do Nordeste, anuncia que a chuva está voltando. Voltamos à iminência da água, e o fim do pequeno mapa do tempo já guarda, inteiro, o seu recomeço.
Durante muito tempo anestesiados, voltamos agora os olhos para o clima, para as estações que se desregulam e para um céu que aprendemos a temer nesta era de catástrofes. Mas Paula Siebra vem dizer que reparar no mundo é já um modo de defendê-lo, devolvendo-nos ao centro do tempo natural sem nos tirar alguma beleza. Suas telas compõem a fantasia de um mundo acolhedor, de escala doméstica e afeto contido, em que cada coisa parece ter encontrado seu lugar exato. Há nelas a promessa de um mundo-ninho: um todo despido de conflito, em que as partes se acomodam umas às outras como peças de uma forma justa, feita para que tudo caiba. Se o mundo não é bem assim, talvez por isso mesmo ela o pinte, como quem guarda a imagem daquilo que ainda vale a pena proteger. Ela nos ensina, à maneira dos poetas do haiku, que uma flor de cacto pode dizer a estação inteira, e que atravessar o mundo até Kyoto pode ser um jeito de reaprender a olhar o próprio quintal. É um convite a reabitar o ano e a reconhecer que até aqui, também neste estranho sertão da grande São Paulo, cada coisa viva entoa a sua canção, e que o tempo, apesar de tudo, ainda gira. Sobre aquele telhado vermelho, logo volta a chover de novo.
– Pollyana Quintella
