IMPASSE Paulo Nazareth
Há um corpo que atravessa territórios, carregando os traços de mundos interrompidos. Um corpo que se move por ruínas coloniais, fronteiras, memórias familiares e espiritualidades ancestrais. À medida que caminha, revela histórias enterradas pela escravidão, pelo genocídio dos povos indígenas, pela migração forçada e pelo apagamento sistemático das identidades negras e indígenas nas Américas.
Em IMPASSE, Paulo Nazareth constrói uma cartografia da memória traumática e da resistência. Seu trabalho surge do movimento – físico, simbólico, político e espiritual –, transformando o deslocamento em um método de produção artística e pensamento crítico.
IMPASSEé um território de suspensão onde os objetos deixam de funcionar como representações e se tornam testemunhos. Cada obra funciona simultaneamente como um vestígio arqueológico, um documento político e um ritual de sobrevivência.
Por meio de fraturas, tensões e aproximações, Nazareth revela o que a modernidade colonial buscou apagar: cosmologias ancestrais, revoltas silenciadas e modos de vida considerados descartáveis.
Essa dimensão surge em Botocudos Heritage, onde arquivos fotográficos coloniais retratando povos indígenas são revisitados. Descendentes contemporâneos seguram daguerreótipos outrora usados para catalogação racial e objetificação científica. Ao devolver essas imagens às comunidades, o artista rompe com a autoridade colonial sobre o arquivo. O passado deixa de ser um capítulo fechado da história e se torna um conflito presente.
Essa exploração da ancestralidade se estende à fotografia Amor de Mãe, na qual a presença materna surge como o eixo espiritual da exposição. Aqui, a ancestralidade tem um rosto, um corpo e uma voz. A figura materna torna-se um símbolo de permanência e resiliência coletiva no cuidado.
Outro componente da exposição é o Patuá. Patuárefere-se ao amuleto afro-brasileiro associado à proteção espiritual e à preservação da memória. Nazareth desenvolve essa ideia e transforma cada objeto artístico em um potencial talismã contra o esquecimento.Patuáressoa com diferentes camadas semânticas e históricas: foneticamente, assemelha-se a pas toi, “não você” em francês, evocando mecanismos de exclusão e a negação do pertencimento, mas também se refere ao patois, um termo historicamente usado na França para designar línguas e dialetos considerados “menores” ou “incivilizados”. Ao reunir patuá, pas toie patois, a série destaca como a cultura é também um campo de violência colonial.
A exposição também examina como o colonialismo persiste por meio do comércio e do consumo. Em Ovo de Colombo, esculturas de resina encapsulam produtos alimentícios e objetos comerciais associados a nomes indígenas e à diáspora afro-brasileira. Esses blocos transparentes se assemelham a fósseis de uma história colonial inacabada, revelando como o capitalismo absorve e mercantiliza sua própria violência.
As pinturas, gravuras e desenhos a carvão de Nazareth recuperam, de forma semelhante, histórias silenciadas de resistência negra e indígena. Obras pintadas em gamelasfeitas de madeira de tamboril evocam insurreições, rebeliões de escravos e movimentos revolucionários apagados das narrativas oficiais. Na exposição IMPASSE, Paulo desafia os regimes oficiais de representação histórica ao integrar imagens de reis e rainhas africanos em estruturas monumentais de madeira. Dessa forma, essas figuras emergem como presenças políticas e espirituais ainda ativas no presente.
No entanto, ele vai ainda mais longe ao convidar a Rainha Belinha para a exposição. Matriarca da Guarda de Moçambique e do Congo Treze de Maio de Nossa Senhora do Rosário, a Rainha Belinha, Rainha Conga, surge como um arquivo-corpo, um território de continuidade e guardiã de uma linhagem de mulheres que, ao longo de gerações, sustentaram as dimensões ritual, política e comunitária do Congado de Minas Gerais. Não é por acaso que, durante sua entronização, a Rainha Belinha se transforma em Nzinga, evocando a memória da soberana da África Central como um princípio de força, travessia e reinvenção. Até mesmo sua viagem para Angola permitiu-lhe refazer os caminhos de seus ancestrais, num gesto de reinscrição histórica e espiritual. Esta outra jornada, de Belo Horizonte a Paris, não funcionará como um deslocamento exótico, mas como evidência de que, dentro das diásporas, ainda existem instrumentos vivos para a transmissão da memória, da espiritualidade e de um senso de pertencimento que continuam a remodelar formas de existência coletiva. Ao incluir a Rainha Belinha na exposição, Paulo transforma nossa própria compreensão de monumentos, realeza e arquivos, afirmando a ancestralidade negra como um aspecto vivo, contínuo e inescapável da experiência humana.
A série fotográfica da exposição apresenta círculos de efun, giz branco usado em práticas espirituais africanas para purificação e conexão ancestral. Essa tensão entre materialidade e memória também permeia as pinturas reunidas na exposição. Produzidas em diferentes momentos de sua carreira, elas compartilham uma atmosfera de suspensão temporal. Os gestos retratados parecem congelados no momento imediatamente antes ou depois do confronto.
Esse processo atinge seu desdobramento final na série They Do Not Know My Country. Resultado de suas viagens e deslocamentos internacionais, as impressões revelam experiências de racismo, exclusão e invisibilidade vividas por indivíduos racializados em trânsito pelo mundo.
Ao longo de IMPASSE, Nazareth constrói arquivos alternativos feitos de ausências, silêncios, ruínas e sobrevivência. Seu trabalho revela que a memória não é nostalgia, mas um campo de disputa. Cada obra questiona quem foi autorizado a permanecer na história, quem teve o direito de lembrar e quem continua sendo forçado a esquecer para sobreviver. O artista cria um território onde arte, espiritualidade, política e vida cotidiana se tornam inseparáveis. Cada objeto, caminho e gesto expõe a persistência da desigualdade colonial, ao mesmo tempo em que afirma a sobrevivência coletiva, o cuidado e a reinvenção.
Em IMPASSE, Paulo Nazareth insiste em afirmar a persistência da vida, apresentando um conjunto de obras profundamente comprometido com a construção de novas formas de imaginar pertencimento, ancestralidade e justiça.
– Kabila Kyowa Stéphane
