Kishio Suga
Kishio Suga é uma das figuras mais importantes da cena artística japonesa contemporânea. Depois de estudar pintura na Universidade de Arte de Tama, em Tóquio, começou a trabalhar, a partir de 1968, com elementos retirados da realidade, orgânicos ou artificiais. Através da sua manipulação, buscou expressar a natureza fundamental do mundo que o rodeava e tornar visíveis as relações entre esse mundo e o indivíduo.
As obras desenvolvidas nesse período ainda não eram enquadradas como instalações, mas buscavam, de todas as formas, se distanciar tanto do campo da pintura quanto do da escultura. Elas existiam em uma zona não identificada de prática e teoria, permitindo que Suga abordasse a matéria fora das restrições impostas pela filosofia antropocêntrica herdada do pensamento ocidental.
O trabalho de Suga investiga as possibilidades intrínsecas da matéria, uma vez que não é mais considerada inerte e passiva, mas uma interlocutora – se não mesmo um sujeito por direito próprio. Suas pesquisas, associadas à de outros artistas do mesmo período, como Nobuo Sekine, Lee Ufan, Susumu Koshimizu ou Kōji Enokura, foram vinculadas retroativamente a um movimento informal, particularmente ativo entre 1968 e 1973, chamado Mono-ha, ou “a Escola das Coisas”.
A dupla exposição organizada pela Mendes Wood DM, em Paris e Nova York, apresenta duas direções do trabalho de Suga: as obras bidimensionais e as instalações.
A primeira reúne dois tipos de práticas, as “obras sobre papel” e as “assemblages”, cada uma delas atuando como uma investigação da noção de espaço. Desde o início, Suga rejeita a ideia de que a natureza bidimensional de uma obra deva implicar uma relação convencional com a imagem. Estas obras não são representações nem construções simbólicas; pelo contrário, ativam as dimensões e qualidades reais de um determinado espaço. Através da interação entre plenitude e vazio, da alternância entre superfícies planas, ocas e em relevo, e das relações formadas entre as formas e o espaço negativo circundante – muitas vezes permitindo que a própria parede apareça –, Suga materializa o que chama de kyokūse (espaço compartilhado), no qual cada elemento é visivelmente dependente dos outros.
Nas obras bidimensionais e nas situações tridimensionais, o uso da geometria, bem como a presença informal dos galhos de árvores e outros elementos orgânicos, permite ao artista manter a expressão da sua própria interioridade à distância – princípio esencial comum a todos os artistas associados ao Mono-ha. Ao reduzir o que definiu a identidade do artista na modernidade ocidental desde a Renascença, Suga abre a possibilidade para que outra forma de interioridade surja: a do mono (a coisa) em si, ou do espaço. Rejeitando o termo “composição” em favor de “ação”, Suga busca produzir um jōkyō (situação): um espaço no qual as coisas aparecem em sua condição essencial, além da conceituação e da percepção humana. Suas instalações, sempre adaptadas aos locais em que se desenrolam, destacam as características imanentes do espaço e apontam para o próprio lugar em que o espectador se encontra. Contorted Positioning (1982 – 2026), apresentada em Nova Iorque, e Boundary of Marginal Scenery (1994 – 2026), instalada em Paris, não replicam as suas configurações originais, mas respondem às condições específicas de cada espaço expositivo. Na prática de Suga, o trabalho nunca se limita a um projeto fixo; ele é considerado como uma situação informada por um espaço-tempo particular, com o qual o artista compõe. Ao buscar libertar a arte de todas as formas de ficção humana, Suga estabelece as bases para uma estética que vai além do humano. Em vez de expressar a turbulência da vida interior do artista, seu trabalho restaura às coisas que nos cercam toda a força de sua alteridade fundamental. Ao revelar a subjetividade das coisas em si mesmas e permitir que sua “intencionalidade” emerja, Suga permite que elas existam como agentes – como nossos equivalentes. Essa prática, iniciada em 1968 e nunca interrompida desde então, faz da obra de Kishio Suga um dos projetos mais radicais de transformação da nossa relação com a matéria na história da arte recente.
– Nicolas-Xavier Ferrand
