Slipway Peter Shear
Se existe senso de realidade, tem de haver senso de possibilidade.
– Robert Musil, O Homem Sem Qualidades, 1930 – 1942
A Mendes Wood DM tem o prazer de apresentar Slipway, a primeira exposição individual na Europa do pintor estadunidense Peter Shear, radicado em Indiana. Conhecido por telas de pequeno formato que resistem a classificações, fórmulas fixas e repetições, Shear ocupa uma posição que desvincula a pintura abstrata de linguagens consagradas, propondo uma abordagem exploratória e uma alternativa a dogmas e ortodoxias. Trabalhando com o essencial – planos de cor, marcas esquemáticas, formas livremente definidas, geometrias provisórias –, suas pinturas habitam o espaço entre abstração e legibilidade, suspendendo a identificação sem jamais resolvê-la. As pinceladas oscilam entre o denso, o delicado e o seco, enquanto os fundos podem ser planos, manchados, sobrepostos ou deixados expostos. “Desenhar com tinta” é central à sua prática, assim como o retorno às obras ao longo do tempo para trabalhar tensões compositivas. Sem ceder à busca explícita por padrões nem a um expressionismo insistente, os trabalhos de Shear aproximam o espectador por meio de uma economia de meios. Nesse sentido, sua prática dialoga com a de pintores como Thomas Nozkowski, Raoul de Keyser e Ilse D’Hollander, que se afastam de gestos grandiosos em favor de um envolvimento mais silencioso e investigativo com o suporte.
Para Shear, um trabalho se realiza quando escapa à intenção – quando surpreende, incomoda ou resiste. Suas “pinturas finalizadas” carregam sempre um elemento de dúvida, algo ligeiramente deslocado ou fora de eixo. As cores se tornam turvas; as composições se inclinam, ocultam ou estagnam. Alguns trabalhos são cinéticos, oferecendo um sopro de ar ou uma sensação de libertação em relação a composições fixas. Outros permanecem intransigentes, por vezes até ásperos. Cada um ocupa uma interseção instável de significados, sem apontar para uma única leitura. A leitura e a mecânica da produção literária são adjacentes à prática de Shear. O artista, que cita poetas elípticos como Emily Dickinson e John Ashbery como referências, descreve um deslizamento entre o momento em que a pintura surge e aquele em que é deixada de lado. Em certos casos, os trabalhos funcionam como prólogos ou estruturas para algo ainda por vir. Às vezes, apresentam-se como um poema minimalista, outras vezes como um conto, funcionando como ensaio, no sentido etimológico de tentativa, experiência, exploração.
Em diversos aspectos, a prática de Shear se aproxima do que Robert Musil, o singular romancista da vida como experimento, chamou de “ensaísmo”: um modo de pensar que acolhe a tentatividade, a possibilidade e a abertura. No espírito de O Homem Sem Qualidades(1930 – 1942), cujo personagem central se mantém aberto ao possível recusando crenças fixas, as pinturas de Shear persistem como fragmentos apaixonados, parciais, não resolvidos. Ali onde o público normalmente espera fechamento e significado, as pinturas resistem justamente por não se resolverem.
Entrando e saindo de harmonia, os trabalhos na exposição mostram como a própria variação se torna método. Em Slipway [Rampa] (2025), trabalho que dá título à mostra, verdes oliva e marrons profundos surgem em amplos traços horizontais, enquanto áreas raspadas revelam camadas inferiores, evocando erosão ou resíduos de maré, e permanecendo insistentemente planas. Valve [Válvula] (2025) segue outro caminho: grossos traços diagonais em cinza criam um ritmo mecânico, enquanto um ultramarino vívido pressiona das bordas como se confinado. Em Scan (2025), formas marcantes se concentram perto do centro de um campo cerúleo, quase pictográficas, como se reduzidas a seus componentes gráficos essenciais. Em outros trabalhos, os títulos sugerem encontros e brincam com o espectador, como em Touch [Toque] (2025), onde curvaturas orgânicas evocam anatomia, e a palavra confere intimidade às formas. Já em Procession [Procissão] (2025), um dos trabalhos mais contidos do conjunto, marcas violetas descem por um fundo luminoso, equilibrando disciplina de estúdio e acaso.
Nunca proprietário de suas imagens, Shear imagina a exposição como um aparato, um dispositivo que se pergunta: quais partes móveis podem gerar efeito, com qual economia de meios? Ao percorrer a galeria, o visitante carrega consigo a memória de geometrias, paletas, escalas, sensações. As pinturas podem parecer dissonantes ou cacofônicas, familiares ou estranhas, capazes de evocar lembranças numinosas ou perturbadoras. Se os essais apresentados em Slipway alcançam algo próximo de uma conclusão, isso acontece apenas na experiência daqueles que os encontram, completando o que Shear chama de “a frase”. O que importa, acima de tudo, é que, ao atravessar fissuras, deslocamentos e ressonâncias, o espectador conserva fragmentos de uma conversa.
Peter Shear (n. 1980, Beverly Farms, EUA) vive e trabalha em Bloomington.
Exposições individuais recentes incluem: Slipway, Mendes Wood DM, Bruxelas (2026); The Company, Denison University, Granville (2026); A Point Between the Eyes, Mendes Wood DM, Germantown (2025); Accident Report, American Art Catalogs, Nova York (2024); Reality Show, Blum, Los Angeles (2024); Following Sea, Cheim & Read, Nova York (2023); The Cat Came Back, Castle, Los Angeles (2022); Peter Shear: Empty Boat, Koki Arts, Tokyo (2021); Recording, Fortnight Institute, Nova York (2021); Time Stamp, Herron School of Art + Design, Indiana University, Indianápolis (2019).
Exposições coletivas recentes incluem: Surface and Signal, Blum, Tóquio (2025); Breath, Art Cake, Brooklyn (2025); Find and Keep: Janine Iversen e Peter Shear, CLEARING, Nova York (2024); The Wrong Tree, dunes.fyi, Portland (2024); The Feminine in Abstract Painting, Milton Resnick and Pat Passlof Foundation, Nova York (2023); Real Life, Sofie Van de Velde, Antuérpia (2023); Things Seen, Make Room, Los Angeles (2023); A Game for the Living, dunes.fyi, Portland (2023); The Sense of Sight: Landscape, the City, and Abstraction, Make Room, Los Angeles (2023); Regarding Kimber, Cheim & Read, Nova York (2022); Small Paintings, Venus Over Manhattan, Nova York (2022); 10 Year Anniversary Exhibition, Koki Arts, Tokyo (2022); Beyond Genres, Outsider Art Fair, Nova York (2022); Angle of Repose, Poker Flats Gallery, Williamstown (2021); A Wild Note of Longing: Albert Pinkham Ryder and a Century of American Art, New Bedford Whaling Museum, New Bedford (2021); Zwang, C.G. Boerner, New York (2020); Adrian, George, Peter, Sofia e Tamina, P420 Arte Contemporanea, Bologna (2019).
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Peter Shear, Split, 2025 -
Peter Shear, Untitled, 2025 -
Peter Shear, Moon, 2025 -
Peter Shear, Contact, 2025 -
Peter Shear, Blood Flow, 2025 -
Peter Shear, Rinse, 2025 -
Peter Shear, Touch, 2025 -
Peter Shear, Valve, 2025 -
Peter Shear, Contest, 2025 -
Peter Shear, Satisfaction, 2025 -
Peter Shear, Slipway, 2025 -
Peter Shear, Moment Frame, 2025 -
Peter Shear, Double Life, 2025 -
Peter Shear, Latitude, 2025 -
Peter Shear, Pocket, 2025 -
Peter Shear, Anchor Pattern, 2025 -
Peter Shear, Magnifying Glass, 2025
