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10/10 - 19/12 2020

As pinturas de Marina Perez Simão caracterizam-se, sobretudo, por uma ambiguidade intrínseca. Operando num campo entre a abstração e a figuração, suas obras são ocupadas por formas quase sempre indefinidas, executadas com pinceladas fluidas e sinuosas. E, apesar disso – ou talvez por causa disso –, é possível reconhecê-las, grosso modo, como paisagens. Em alguns casos, encontramos traços de uma iconografia mais explícita. Elementos tais como o sol, a lua, um lago ou uma serra são claramente identificáveis e são executados de maneira esquemática ou, até mesmo, arquetípica. Além disso, muitas dessas pinturas são estruturadas a partir de um padrão compositivo que nos permite distinguir o céu, a linha do horizonte ou uma camada de crosta terrestre.

No entanto, longe de nos oferecer um sentido de perspectiva ou profundidade de campo, esses elementos aparecem condensados em um único plano, cada um deles demarcado por blocos de cores pulsantes, com diferentes temperaturas, porém intensidades equivalentes. A tensão latente que fica evidente, mesmo nos trabalhos com uma paleta menos vibrante, é também produto de uma pincelada expressiva, urgente. Todos esses componentes parecem se articular com a lógica interna da própria pintura, num jogo de oscilação constante entre aquilo que é reconhecível – neste caso, a paisagem como um dos gêneros mais tradicionais da pintura – e algo que resiste a se revelar tão facilmente. Sem dúvida, o que interessa nessas obras não é a realidade externa, mas algo que acontece no âmbito da pintura e que sugere a construção de um campo simbólico próprio.

Talvez seja por isso que encontramos motivos pictóricos recorrentes em diferentes trabalhos. Nessa recente série de pinturas, volumes cósmicos aparecem duplicados ou, às vezes, espelhados, criando formas sugestivas, incrustadas nas entranhas da terra. Empregando um gesto similar, que mistura representações de paisagem convencionais, montanhas parecem emergir da parte inferior da composição, posição que, pela lógica, corresponderia à camada subterrânea da Terra, enquanto, em outro exemplo, o tratamento esquemático de um corpo d’água é reproduzido no céu. 

Para além de uma ambiguidade formal – pois tudo “parece ser” e nada garante que seja de fato –, as imagens também apresentam uma ambiguidade semântica, oscilando constantemente entre a sedução e a repulsão, o bucolismo e o apocalipse, a expansão e a claustrofobia, sem nunca se fixar em um único lugar. Em um primeiro momento, elas nos capturam com aquilo que têm de familiar (por serem paisagens) e por trazerem um colorido que lembra a arte popular (penso em Lorenzato e Forrest Bess). Mas esse lado afável ou acessível convive com o estranhamento provocado por uma certa violência do gesto, com limites claros que denotam a impenetrabilidade e a solidão de um mundo praticamente pós-humano. 

O imaginário da obra de Marina Perez Simão provém de várias fontes literárias que, muitas vezes, surgem explícitas nos títulos de suas exposições. No entanto, em vez de serem citações diretas, suas pinturas se materializam a partir de um processo de transposição livre da palavra em imagem, preservando ânimos, intensidades e simbolismos diversos que sugerem narrativas não lineares e abertas. De modo específico, os trabalhos apresentados em Éveils Maritimes giram em torno do poema de Arthur Rimbaud, Le Bateau Ivre (“O barco bêbado”), de 1871, escrito a partir do ponto de vista de um barco à deriva em mar aberto, após perder seus rebocadores – uma espécie de parábola sobre a vida e a arte, em que a perda de controle leva a uma redenção espiritual ou estética. O relato de Rimbaud combina, de forma harmoniosa, imagens de aniquilação e criação, talvez insinuando que as forças da liberdade e da destruição são indissociáveis.

Da mesma forma, sempre habitando uma zona de indefinição, o universo interior criado por Marina Perez Simão rejeita a assertividade de categorias binárias tradicionais e, ao fazê-lo, aproxima-se de uma visão mais verdadeira da experiência humana, na qual a vida e a morte pulsam em um constante entrelaçar. 

– Kiki Mazzucchelli

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