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26/11 2022 - 14/01 2023

Agora vou lhe contar uma história. Espero que ela seja uma boa companhia para aquilo que você está prestes a ver, mas, antes disso, gostaria que você reservasse um momento para refletir sobre algo. Antes de seguir adiante, pense naquilo que você de fato compreende como “um corpo”. Para a maioria de nós, é ponto pacífico que o corpo humano seja uma entidade estável e encerrada em si mesma. O indivíduo, assim como o tempo linear, o gênero, a raça ou mesmo a perspectiva, é frequentemente percebido como uma ideia irrevogável e providencial, ao passo que todos esses elementos são, na verdade, pressupostos contextuais e construtos sociais relativamente recentes. Desde o Iluminismo, a definição de humanidade dependeu da exclusão de tudo o que se julgava não humano: plantas, animais e objetos inanimados. Sem falar nas pessoas que não são brancas ou do sexo masculino, pessoas que não têm dinheiro ou terras, ou aquelas que vivem de acordo com lógicas heterodoxas.  

A história que estou prestes a contar teve início há cerca de 3,5 bilhões de anos, quando os estromatólitos — também conhecidos como “rochas em camadas” — dominavam os litorais ao redor do mundo, e reinavam como a primeira forma de vida do planeta Terra a ser visível a olho nu. Essas criaturas se formavam em águas rasas, onde biofilmes de microrganismos vivos, tais como as cianofíceas, recolhiam sedimentos. As formas delicadas e onduladas dessas estruturas eram “esculpidas” por microrganismos em movimento. A posição dos estromatólitos no ecossistema permaneceu inabalada por dois bilhões de anos. Porém, há cerca de um bilhão de anos, as rochas em camadas desapareceram subitamente dos registros fósseis. Pesquisadores dizem que essa extinção não é menos dramática que a dos dinossauros e, no entanto, até muito recentemente ninguém sabia o que aconteceu com os estromatólitos (1). Tendo um impacto menos visível sobre o planeta — e menos atraente para um roteiro de Hollywood —, essas rochas aparentemente sofreram uma mutação silenciosa.

Por meio de sequenciamento genético e simulações em laboratório, cientistas traçaram uma conexão entre os estromatólitos e outra peculiar estrutura viva de aparência rochosa e desajeitada, que foi se manifestando aos poucos: os trombólitos. Depois de alguns meses em um ambiente controlado, as delicadas camadas de nossa personagem se transformaram em estranhas pedras coaguladas. Os cientistas então suspeitaram que algo parecido ocorrera há um bilhão de anos, em todo o planeta, conduzindo os estromatólitos à extinção ou transformando-os em uma versão mais deselegante de si mesmas. Essas formações foram uma das primeiros evidências da conexão íntima entre a biologia — os seres vivos — e a geologia — a estrutura da própria Terra. A persistência do mistério e o desaparecimento — ou transmutação — monótono dos estromatólitos pareceram um bom ponto de partida para discutir as novas esculturas de Paloma Bosquê.

Muitas vezes nos perguntamos do que uma coisa é feita, como se essa informação pudesse gerar uma relação mais segura e “inteligível” com aquilo que vivenciamos. Aquele que pergunta — o sujeito — procura circunscrever e definir o objeto: o que eu vejo é algo exterior a mim, feito de algo identificável e muitas vezes elaborado por alguém, e possui um significado específico. É comum que essa seja a primeira pergunta que Paloma Bosquê escuta de alguém que observa seus trabalhos, sobretudo aqueles produzidos nos últimos três anos. A materialidade peculiar e as formas indefiníveis de suas esculturas provocam uma ansiedade proativa: se deparar com algo absolutamente presente, mas não pode ser circunscrito por meio de qualquer linguagem existente.  

Como nossos colegas estromatólitos, trabalhos de arte muitas vezes são submetidos a esse tipo de escrutínio. Propositalmente, não vou dispor em uma mesa de dissecação os trabalhos que você está prestes a ver. Em vez disso, vou deixá-los à mercê de sua própria experiência, de seus próprios sentidos — a matéria importa per se. Assim que começamos a falar sobre a matéria, nos distanciamos dela. Dentro do espaço que se abre, uma série de coisas imateriais emergem: linguagem, consciência, subjetividade, agência, mente, alma, valores, significado e assim por diante. (2)

Próspero (3), o mágico de Shakespeare, notoriamente afirmou: nós somos da matéria de que é feito o sonho, e nossa diminuta vida é circundada por um adormecer. Assim, não seria o próprio sonho a prova de que aquilo que é sonhado deve estar lá para constituir o sonho? É preciso que aquilo esteja lá, mas onde? Pode um corpo sonhar-se rumo à existência? “A matéria” à qual Próspero se refere — a matéria que une o visível ao invisível — é aquilo que Paloma Bosquê parece perseguir. Escrever sobre seus trabalhos é lidar com o inquietante, e sentir na própria carne os limites da linguagem.

O trabalho de Bosquê convida ao toque, ou talvez a um “olhar tátil” que nada tem a ver com interatividade. As suas esculturas têm uma condição tátil que é também a base para refletir sobre o “estar junto” a partir da perspectiva do que é ilimitado e impossível de alcançar. A convivência não é uma relação harmoniosa entre coisas encerradas em si mesmas. O trabalho de Bosquê é um lembrete de que nenhum ser está intacto. Nossa existência enquanto corpos, corpos humanos, são meras ocorrências, entre outras coisas em movimento. Jacques Derrida propõe que a liminaridade do toque está ligada a uma preocupação com as relações possíveis ou impossíveis entre os objetos (4). Em outras palavras, a preocupação com o toque pode ser equivalente à preocupação com os limites da realidade e a possibilidade de apreendê-la.  

Veja, nunca se pode tocar realmente em nada; ao mesmo tempo, não há isolamento ou desaparecimento absoluto. Nós vivemos nesta cintilação. Nada está de fato apartado ou totalmente em contato, e sinto que a obra de Bosquê, em seu conjunto, encarna essa aporia. Suas misteriosas formas noturnas (corpos, paisagens, espectros? não importa...) parecem estar fazendo uma estranha dança de aprender a compartilhar um terreno comum: testando mutuamente seus limites— e os nossos — apenas para descobrir que já são adjacentes.

A nova exposição de Paloma Bosquê é uma história “contra linear”. Nas salas em que você vai entrar, não haverá um “eu” triunfante, nem um “nós” generalizado e universal. Em vez disso, uma trama de materiais e formas desafia preconcepções do corpo e questiona seus limites, particularmente no que tange às dobras entretecidas do desejo e aos marcadores sociais de gênero e sexualidade. A história que Bosquê apresenta é inconformista, e nela os personagens — ou seres — ainda por serem nomeados — mergulham muito além da superfície do significado para reconfigurar seus contornos e celebrar os mistérios e contradições da existência compartilhada. Aqueles que esperam acompanhar um enredo ficarão desapontados. Como eu disse antes, minha história era uma boa companhia para a dela. Esta exposição é, acima de tudo, um convite a abrir mão de algo; a trocar as lentes com as quais enxergamos antes de entrar em contato com qualquer coisa que coexista conosco. Talvez esta exposição seja até mesmo uma canção de ninar, ou, quiçá, um momento para louvar uma mutação silenciosa.

- Fernanda Brenner  

(1) Nuwer, Rachel. “What Happened to the Stromatolites, the Most Ancient Visible Lifeforms on Earth?”. Smithsonian Magazine, May 30, 2013. Acessível em: www.smithsonianmag.com/smart-news/what-happened-to-the-stromatolites-the-most-ancient-visible-lifeforms-on-earth-84714880/

(2) Como proposto por Diana Coole e Samantha Frost na introdução de seu livro “New Materialisms: Ontology, Agency, and Politics”. Durham: Duke University Press, 2010.

(3) Shakespeare, Wiliam. “A tempestade”. São Paulo: Companhia das Letras, 2022. Trad. José Francisco Botelho.

(4) Derrida, Jacques, 1930 - 2004. “On Touching—Jean-Luc Nancy”. Stanford: Stanford University Press, 2005

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