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09/06 - 30/07 2022

Da permanência do tempo

Em Racismo e Sexismo na Cultura Brasileira, Lélia Gonzalez entende a neurose cultural brasileira como a repulsa pela constituição plurirracial e pluricultural de Brasil através da denegação. A autora aponta como esse problema promove apagamentos, recalcamentos e repressão das culturas subalternizadas. Um dos processos de recalcamento a que a autora se refere é a noção de que existe uma cultura brasileira, herdeira europeia, que permitiu a influência de certos elementos culturais indígenas e negro-africanos na sua formação. Tal entendimento parte da hierarquização, que afasta e que marca a diferença entre a cultura como elemento europeu, logo superior, e o selvagem e grotesco lugar da outridade. Essa hierarquização colabora diretamente para o discurso que define as religiosidades, hábitos, idiomas, formas de organização social e modos de vida não brancos como primitivos e sem história. A partir desse discurso, é possível notar um segundo par de opostos que coexistem: a consciência e a memória. É na consciência que se encontra a história e o discurso hegemônico que sustentam o projeto de nação brasileira e que, ao manter a população negra na condição de outridade, a define pela infantilização e estereotipização. Já a memória opera o lugar que restitui a história que não foi escrita. A memória é a rasteira.

Lélia Gonzalez escreve ainda sobre como as noções e as imagens da mulata, doméstica e mãe preta insistentemente habitam a história promovida pelas instituições, sendo essas mesmas noções que apontam para o lugar da mulher negra no processo de formação cultural brasileiro, por diferentes modos de rejeição/integração de seu papel. Apesar disso, há ginga embaixo de cada camada de consciência a ser escavada. Ao negar o lugar subalternizado do desaparecimento, da tragédia e do binarismo colonial, a autora aponta que é justamente a mulher negra quem vai dar a rasteira na raça dominante, que, sem perceber, fala pretoguês.

A memória, aquilo que escapa do controle do ideal de Brasil brancocêntrico, é a testemunha da permanência do tempo: o passado-presente que brota na enunciação do indizível. Que se faz ver naquilo que se pretende esconder, que revela o que deve ser ocultado, mas que segue existindo. Seja no idioma falado, seja nas imagens que produzimos.

A obra de Rosana Paulino desestabiliza modelos representacionais dominantes através de imagens desestabilizadoras. Enuncia e dá ênfase ao que mais se procura omitir. No vídeo Das Avós, há uma suspensão do tempo linear judaico-cristão ocidental– suspensão que acontece em outros trabalhos da artista – quando imagens de mulheres negras teoricamente pertencentes ao incômodo passado, fotografias produzidas historicamente como cartões de visita e ilustrações da escravidão, são buscadas e cuidadosamente trazidas à frente, relembradas, acarinhadas e costuradas junto ao corpo para jamais serem esquecidas ou encerradas no discurso que reprimiu suas subjetividades.

O corpo feminino negro coleciona uma sobreposição de opressões – de raça, gênero e classe. Mas é esse corpo feminino racializado que segue, em sua complexidade, irrepresentável pelas lentes brancocêntricas. Se falta linguagem e vocabulário às artes ditas ocidentais para lidar com tais existências, na série Senhora das Plantas (2022), Rosana Paulino através de significativas plantas para as culturas afro-brasileiras como a espada de iansã, costelas de adão, jiboia e bromélia, por exemplo, cria com uma natureza simbólica um regime de visibilidade que possibilita a percepção da complexidade da subjetividade negra feminina na diáspora e de seus arquétipos.  

Ao pensar a diáspora a artista produz obras a partir do que incomoda e oferece, àquele que caminha por entre suas peças, o espelho para que se perceba também como parte de uma rede delicadamente entrelaçada: a Europa se beneficiou por inteiro com o tráfico atlântico. Não há inocência a ser preservada.  

As imagens, nomenclaturas e estruturas de classificação tampouco são inocentes. Rosana Paulino acessa o arquivo que chamamos de história da arte branco-brasileira e revolve seu inventário que legitimou, por muito tempo, o projeto de Brasil como paraíso tropical, lugar de plantas, bichos e gentes exóticas, e confronta o ideal de tropicalidade e brasilidade perpetuado por essa ótica. Suas pinturas, desenhos e colagens guardam os indícios daquilo que a história escolheu recalcar. Indica o tempo das coisas no estado de Maafa, e a permanência do tempo nas estruturas.  

Ainda que rígidas, tais estruturas assistem inertes, impotentes em sua força, ao desabrochar, à abertura, à teimosia e à eclosão daquilo que tem propósito. A rasteira, a surpresa, a ginga. Pequenos casulos parecem guardar uma subjetividade não permitida, entremeados de vontade, desejos e visões de um corpo negro que dribla a neurose cultural brasileira, brinca com o tempo e projeta vida.  

- Lorraine Mendes

GONZALEZ, Lélia. Primavera para as rosas negras: Lélia Gonzalez em primeira pessoa. São Paulo: Diáspora Africana, 2018. 

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