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11/03 - 17/03 2021

A Mendes Wood DM tem o prazer de apresentar THE SUN, THE SUN, BUT THE INCONSCIOUS OF THE SUN [O sol, o sol, mas o inconsciente do sol], a primeira exposição da artista brasileira Sofia Borges no espaço expositivo de Bruxelas. A mostra reúne trabalhos de algumas das mais elogiadas séries de Borges dos últimos três anos, oferecendo ao público europeu uma introdução à sua produção. A exposição funciona como um prelúdio da residência e mostra individual que a artista fará em Bruges, na Bélgica, no contexto da Trienal de Bruges. Ela também acontece em paralelo com uma importante exposição no prestigiado Museu de Arte de São Paulo Assis Chateaubriand (MASP), que apresenta a pesquisa fotográfica de Borges ao lado da renomada coleção de trabalhos de Edgar Degas, pertencente ao museu.

Esta exposição se concentra em uma apresentação concisa da investigação aprofundada que a artista realizou como artista-curadora na Bienal de São Paulo de 2018 e no Museu de Imagens do Inconsciente, no Rio de Janeiro. O museu foi fundado no prédio que abrigava, no século XX, o centro psiquiátrico onde trabalhava a psiquiatra Nise da Silveira, que foi pioneira no uso da terapia da arte como uma forma de tratamento alternativo para os casos extremos de esquizofrenia, rejeitando tratamentos agressivos (tais como eletrochoques e lobotomias), que eram prática comum nesse período. Nise da Silveira identificava os arquétipos universais de Jung que apareciam de forma espontânea nos trabalhos de seus pacientes, sendo que muitos deles tinham muito pouca ou nenhuma educação formal. Um desses pacientes era Adelina Gomes, uma mulher de ascendência africana que viveu no centro psiquiátrico a partir de 1937 até a sua morte, em 1984. Durante esse tempo sob os cuidados de Nise da Silveira, Gomes produziu mais de 17.500 obras de arte. Um motivo recorrente na arte de Gomes é a imagem de uma mulher se transformando em planta ou flor, algo que a conecta com a figura da mitologia grega Dafne que Apolo transforma em planta quando seu amor por ela não se faz recíproco.  

“Para mim, Adelina representa a transmutação da morte ao virar natureza, tornando-se mulher,  tornando-se flor. Durante a minha pesquisa no Museu de Imagens do Inconsciente, eu fiquei muito impressionada com a força daqueles pacientes em sua longa luta contra a esquizofrenia, na sua tentativa de voltar a ser um só eu. Na minha opinião, agora mais do que nunca, essa força de autocura não poderia ser mais urgente para todos nós, como humanidade”, explica Borges.

“Foi dessa forma e por essa razão que eu criei uma ponte conceitual entre o meu trabalho e o projeto do Degas no MASP. A Bailarina de catorze anos do Degas é, para mim, uma demonstração pura de força, em vez de fragilidade e pobreza. Uma representação histórica da força feminina que teve que passar por 140 anos de equívocos profundos e complexos para, por fim, emergir novamente como algo simbólico que demonstra a urgência de intensa força pessoal. Foi isso que eu vi na escultura: 140 anos de história clamando por reparação, uma força madura incorporada em uma eterna Bailarina de catorze anos.”

A consagrada escultura de Edgar Degas, que retrata uma bailarina de 14 anos, foi uma obra rejeitada na sua época por não ser “bela” o suficiente. A partir da obra de Degas, sob o convite do MASP, Borges criou um complexo projeto fotográfico. “Com as minhas imagens, eu queria, de certa forma, trazer reparação histórica, política e cultural para as representações das mulheres daquele período”, diz Borges. De fato, a história por trás da modelo usada na escultura de Degas é sombria, em uma época onde meninas, muitas vezes pré-pubescentes, eram forçadas a apelar à prostituição para financiar suas aulas de dança. A série fotográfica de Borges, que examina essa obra, se encontra em exibição no MASP, ao lado da própria escultura. Borges, cujo suporte principal é a fotografia, começou a expandir a sua prática e a experimentar novas ideias, em particular durante esse projeto, no qual ela começou a aplicar técnicas de pintura às suas impressões fotográficas.

A exposição lança luz ao interesse de Borges pela mitologia, pelo feitio de imagens e pela relação entre um e outro, questões estas exploradas por meio da fotografia. Assim como a instituição psiquiátrica de Nise da Silveira buscava manifestações espontâneas dos arquétipos de Jung no inconsciente dos seus pacientes, o trabalho de Borges faz emergir suas importantes descobertas, que são apresentadas ao público contemporâneo por meio do uso singular e fascinante da fotografia como suporte, para criar novas imagens poderosas e viscerais arraigadas em uma história universal.

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