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17/07 – 14/08 2021

Nieuwe Gentweg 21
8000 Bruges
Belgium

Sextas e sábados, 12 pm – 6 pm
ou com marcação prévia: +32 (0) 2 502 09 64



Na agitação de nosso dia a dia, temos que parar para prestar atenção; mas, quando tudo está calmo, seu som é inconfundível. Há séculos, ou talvez mais, os sinos de Bruges marcam o compasso do tempo, incansavelmente fracionando eternidades subjetivas em porções de medidas objetivas. Durante os tempos medievais, e nem há tanto tempo assim, seu badalar era um lembrete para rezar as Horas, um marcador espiritual que dividia os dias. Suas batidas acompanhavam a vida e a morte e tudo aquilo acontece entre elas. Em poucas cidades o bater dos sinos e o som produzido pelo carrilhão em seu campanário continua a ser tão onipresente quanto em Bruges. Esses sons não precisam ser escutados, eles estão simplesmente presentes.

É mais revelador do que surpreendente saber que Paula Siebra escolheu O soar das horas como o título da sua primeira exposição individual na Bélgica. O título ativa associações em diferentes níveis, tais como música, poesia, arte ou história, evocando pensamentos sobre o Livro das Horas, que está entre suas fontes de inspiração. No entanto, acima de tudo, são os sons dos sinos de Bruges que marcaram sua onipresença enquanto a artista trabalhava em seu estúdio efêmero, nesta que foi a sua primeira residência internacional, ou enquanto ela caminhava curiosa pelas ruas desertas da cidade. O soar das horas é o resultado magnífico da extraordinária generosidade de patronos solidários, bem como de um extraordinário talento artístico e das extraordinárias circunstâncias de nossos tempos. É o resultado de uma iniciativa temporária que tenta desafiar o tempo e, dessa forma, se faz atemporal.

Nos últimos meses, Paula Siebra criou um estúdio que foi transformado em um lugar solitário para a prática da arte. As paredes têm um colorido tênue e estão livres de qualquer tipo de papel de parede ou de outros elementos decorativos. Elas lembram as cores quentes da paisagem do Ceará (onde Siebra cresceu, na cidade de Fortaleza). São essas as cores que definem o tom de suas pinturas em sua maravilhosa variedade sutil de tons quentes, terrosos, quase radiantes. Ao visitar o estúdio, encontramos pinturas, desenhos, colagens e rascunhos descartados em um espaço desconectado do mundo, que transcende o tempo.

As pinturas exibidas na exposição foram produzidas durante um período curto, mas intensamente produtivo, um período de muitas impressões novas e inesperadas. Elas representam uma continuação progressiva de interesses artísticos anteriores, bem como novas reflexões sobre encontros de primeira mão com o patrimônio presente em Bruges e em outras cidades flamengas. Pela primeira vez ­– para citar apenas um entre vários exemplos –, Siebra pôde observar de perto uma superfície pintada por Jan van Eyck.

Todas essas impressões tiveram o seu impacto. Em algumas de suas pinturas mais recentes, vemos qualidades experimentais que tentam resolver alguns aspectos técnicos dos antigos mestres. Isso não surpreende, dado o fato de que Siebra detém o controle de todos os aspectos de sua produção artística, desde colocar a tela no chassi até preparar suas próprias cores com pigmentos recém-moídos. Reconhecemos suas tentativas de aplicar têmpera em superfícies escuras, tais como fizeram os pintores da Renascença e do Barroco. Siebra domina as técnicas antigas como forma de retomar seu comando pictórico. Isso pode ser visto em Prateleira dos fundos e Mesinha de cabeceira flamenga. Ambos os trabalhos parecem ter raízes na tradição universal da natureza morta, à qual a arte flamenga fez importantes contribuições. Reconhecemos essa técnica no misterioso e onírico Cochilo com anjo tocando alaúde, que parece ser uma resposta feliz ao imaginário perturbador do Pesadelo de Johann Heinrich Füssli e do universo pictórico de William Blake.

Canal, com seus tons azuis acinzentados, capta os aspectos atemporais do pitoresco, que tem fascinado e inspirado artistas e escritores que visitam Bruges. O trabalho representa um ponto de vista bastante pessoal sobre a cidade – sua arquitetura e natureza – na superfície espelhada da água. Parece se inserir em uma tradição que foi definida pelas pinturas de Fernand Khnopff e Henri Le Sidaner ou pelos escritos de Georges Rodenbach.

Por sua vez, o autorretrato da artista, aos 22 anos, é claramente inspirado nos retratos de Hans Memling, que podem ser vistos no Hospital de São João (Sint-Janshospitaal), próximo ao estúdio. Essa pintura revela a preocupação de Siebra com os aspectos mais formais da arte primitiva flamenga, enquanto O antiquário, Interior com cadeira, flores e janela e Jarra, maçãs e menina reimaginam obras de James Ensor, o expressionista flamengo, ou de Jean Brusselmans.

Nas pinturas de Siebra, reminiscências da tradição artística são um aspecto fundamental, incorporando artistas do Brasil e da Europa. Pensar em nomes como Paul Cézanne ou Giorgio Morandi é inevitável quando olhamos para algumas de suas naturezas mortas. Um dos meus trabalhos favoritos é Casal dormindo, um ícone de intimidade harmoniosa que é universal pela sua aparente simplicidade visual. De certo modo, ele evoca, em termos formais, o trabalho de Constantin Brâncusi, que também experimentava com a universalidade. Todas essas referências – reais e/ou imaginadas – podem ser subconscientes ou mesmo acidentais. Além de deixar de reconhecer a forte voz de uma artista emergente, descartá-las como ecléticas também ignoraria o fato de que essas reminiscências são evocações que fornecem ao universo pictórico de Siebra uma natureza atemporal.

Os quadros de Paula Siebra contam histórias que, de maneira simultânea, são imaginativas e sem palavras. Suas histórias transcendem a realidade e se estabelecem em um universo imaginário, que é, em sua essência, poético por natureza e encantado. Em seu processo artístico, no qual o desenho é importantíssimo,  palavras ou frases não se traduzem em imagens, nem imagens se transformam em palavras. A imagem começa a contar a sua história ao lado da narrativa de seus detalhes, de suas cores, de seus símbolos. As histórias contidas em suas pinturas são compostas de objetos encontrados, vistos, descartados, imaginados, remontados. Aquilo que parece ser uma imagem espontânea é o resultado de um trabalho árduo, de várias tentativas de reorganizar a sintaxe de cada detalhe na gramática do quadro. Quando tudo está no lugar certo, a pintura fala. Uma ideia se torna uma necessidade no processo de sua realização. O sino é atemporal mesmo quando bate a cada hora.    

– Till-Holger Borchert



Paula Siebra (Fortaleza, 1998) vive e trabalha em Fortaleza, Brasil. Siebra exibiu na Mendes Wood DM, Nova York (2021); na Mendes Wood DM, São Paulo (2020); na Fábrica Bhering, Rio de Janeiro (2019); no Centro Cultural dos Correios, Rio de Janeiro (2019); no Centro Cultural Light, Rio de Janeiro (2018), e no Museu Nacional de Belas Artes, Rio de Janeiro (2017).

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