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28/11 2020 – 01/02 2021


 “Ó Noite, amiga fiel dos mistérios” 
Ovídio — Metamorfoses, Livro VII, 192) 

noite não noite sim, terceira individual de Paloma Bosquê na Mendes Wood DM — São Paulo, apresenta uma série de objetos esculturais que revelam um aprofundamento da relação da artista com os signos e matérias daquele que entendemos como universo inumano, e parece colocar em xeque a distinção entre animado e inanimado. A matéria, afinal, nunca se esquiva. 

O campo da metamorfose parece estar sempre intuído nessas obras, não apenas no que diz respeito aos processos pelos quais passaram as substâncias que compõem cada peça, mas sobretudo pelo seu caráter transformacional: em uma das Placas compostas por fibra de algodão e gesso pedra, podemos enxergar não o leito de um rio, mas sim o percurso lento e sinuoso da lava que escorre de um vulcão. Em outra, uma silhueta arredondada ocupa um espaço cinzento, que se limita com o negrume da outra metade do quadro: aqui está presente não apenas a noção de margem, fronteira, mas também a forma ovalada que se repetirá em outras obras; a palavra “gema” se refere a pedras, mas também a resina, florações e ao cerne de um ovo — e assim, estamos diante tanto da resistência da matéria quanto de sua potência criadora.

Esse aspecto transformacional também se manifesta no animismo que atravessa os objetos apresentados por Bosquê: em Cobra de duas cabeças, as fibras do algodão e de tronco de bananeira, elementos de origem vegetal, derivam numa forma animalesca e bipartida. Em Sargaços, duas tripas feitas a partir da lã sugerem as garras suspensas de um animal de natureza indefinida. Não há nada de inerte, portanto, naquilo que supúnhamos inanimado.

Apontando para territórios liminares, onde há uma certa indeterminação entre aquilo que se considera próprio do humano, do vegetal e do animal, as esculturas de noite não noite sim nascem de um gesto de reciprocidade entre os muitos elementos da paisagem do mundo. Numa espécie de luta corporal com esses elementos, e na via inversa da dominação ou apropriação da matéria, Bosquê trabalha a partir de um gesto de mobilização mútua e transversal: a matéria anima as mãos e as mãos animam a matéria — que se revolta, que insiste, desafia as mãos com seu enigma. O que deriva do encontro entre o corpo da artista e o corpo das coisas? Quanto dura a incisão das mãos sobre a matéria? Em que momento a repetição dessa incisão adquire o estatuto de memória?

Em noite não noite sim, obra que dá nome à exposição, duas silhuetas pontiagudas se direcionam a um sol negro, que sintetiza a ambivalência desse movimento em direção aos limites permeáveis dos organismos — e ao espanto: bicos de pássaro ou unhas afiadas nos ameaçam e invocam esse clarão às avessas: a noite fértil da mata, onde os seres e as coisas existem e perduram à revelia de nós.

Paloma Bosquê (Garça, 1982) vive e trabalha em São Paulo, Brasil.

Suas mostras individuais recentes incluem Dark Matter, Blum and Poe, Tóquio (2020); In the Hot Sun of a Christmas Day, Mendes Wood DM, Nova York (2019); Inventory, Mendes Wood DM, Bruxelas (2018); O Oco e a Emenda, Pavilhão Branco, Museu da Cidade, Lisboa (2017); Campo, Mendes Wood DM, São Paulo (2016); O Incômodo, Pivô, São Paulo (2015). 

Seus trabalhos também foram inclusos em mostras coletivas institucionais como Brasile. Navalha na Carne, Pac - Padiglione d'Arte Contemporanea, Milão (2018); Bienal de Coimbra, Coimbra (2017); Mycorial Theatre, Pivô, São Paulo (2016); Projeto Piauí, Pivô, São Paulo (2016); Roberto Burle Marx: Brazilian Modernist, The Jewish Museum, Nova York (2016); United States of Latin America, Museum of Contemporary Art Detroit, Detroit (2015).

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