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27/08 – 05/11 2022

Noites de cetim: o escuro da memória e a pintura como relação 

Ainda guardo em mim
Noites de cetim
Luas de marfim
Dias de sol cheio

Anoitece na praia. Por alguns minutos, o céu tem a cor de brasa e, em seguida, arrefece em negro azulado. A paisagem se acalma e guarda a memória do dia que passou como num encantamento. As Noites de cetim de Paula Siebra são lembranças do calor do sol que já se escondeu, mas que permanece sob a pele; lembrança da canção de Amelinha que se ouvia na rádio, cujos versos servem agora de epígrafe. Há uma ilha sob as estrelas, luzes artificiais que brilham longe, o lusco-fusco, o breu. Crianças de banho tomado, um vaso de flores. A quietude da escuridão.

Noites de cetim são também o resultado da pesquisa e do interesse da artista pela prática da silicogravura, as conhecidas “garrafinhas” nas quais imagens — frequentemente paisagens — são criadas a partir da justaposição de areias coloridas em frascos transparentes. Siebra não representa esses objetos, mas estabelece com eles um diálogo profundo, tanto a partir de um pensamento pictórico com passagens cromáticas rápidas, inesperadas talvez, quanto a partir da noção de pertencimento. Não à toa, a exposição também traz o trabalho de outros artistas que mantêm viva essa técnica centenária: Dudui (Carlos Eduardo da Rocha) e Edgar Freitas.

As obras em óleo e têmpera a ovo são construídas com camadas sobrepostas que criam uma atmosfera densa, em que as cores afetam umas às outras, assim como a água do mar reflete a luz do céu, a areia úmida escurece, a vegetação cria manchas nas dunas. “Parece-me evidente que as cores variam em razão da luz”, afirmou o teórico renascentista Leon Battista Alberti, “uma vez que toda cor colocada na sombra não parece ser o que é na claridade.” [1] As cores são oscilantes por natureza, da mesma forma que as luzes e os movimentos das marés.

Alberti, cujo tratado do século XV é considerado o primeiro a sistematizar um pensamento sobre pintura, toma posição: “Falo como pintor. Digo que pela mistura das cores nascem infinitas outras cores, mas existem apenas quatro cores verdadeiras de acordo com os elementos e, dessas quatro, muitas e muitas outras espécies de cores nascem. Existe a cor do fogo, o vermelho; a do ar, o azul; a da água, o verde; e a terra tem a cor cinzenta e parda.” [2] A passagem não é trivial. Ao conectar as cores que entende como “verdadeiras” aos quatro elementos, o autor propõe uma relação íntima entre pintura e natureza, como se fossem feitas da mesma matéria: uma relação de interdependência.

Talvez seja possível dizer que os trabalhos de Siebra também nasçam do encontro entre a artista e o lugar, suas luzes, a matéria da qual ele é feito, a areia tingida com que as pessoas trabalham. Não são, portanto, composições desinteressadas, mas uma espécie de transfiguração da paisagem — natural e humana — em pintura, da escuridão em matéria densa, carregada de afeto.

As imagens são aquilo mesmo que aparentam: o mar, o céu, a areia, o vaso de flores, a caixinha de joias, a mulher que penteia seus cabelos. Mas, assim como na canção que dá nome à mostra, as imagens evocam muitas outras na memória dos espectadores, sempre diversas e vacilantes, a depender de suas experiências pessoais.

Há um sentido de generosidade na obra de Paula Siebra, construída pacientemente em pequenas pinceladas, com o depósito dos pigmentos: a existência se dá sempre em relação, numa espécie de consórcio. O azul do céu e do mar em Falésias e areia molhada, por exemplo, se altera com os tons alaranjados abaixo dele e à sua volta. Os elementos iconográficos também mudam de sentido quando colocados lado a lado. Dentro da caixa de joias em Coisas da minha mãe há um batom aberto, um frasco de vidro e, entre outros objetos, um par de olhos fechados. Abaixo deles, os brincos em formato de gota transformam-se em lágrimas e ecoam a cortina da entrada da exposição. Pérolas são água que são joias — que são também um enigma, uma história pessoal. Nada existe a não ser em conjunto. A Mulher penteando o cabelo, limpo do sal, parece rememorar acontecimentos recentes, e a forma do seu corpo traz à lembrança esculturas populares e ex-votos de madeira, objetos de arte profundamente implicados na vida e no corpo de quem os produziu.

“Contém em si a pintura — tanto quanto se diz da amizade — a força divina de fazer presentes os ausentes”, escreveu Alberti. [3] Assim como as cores influenciam umas às outras e as luzes também alteram as qualidades daquilo que se vê, os encontros das pessoas são capazes de transformar suas experiências e seus trabalhos. A convivência dos artistas no litoral, as memórias dos dias ensolarados, o conhecimento técnico compartilhado são as substâncias fundamentais para a criação das obras, assim como o encontro entre elas e quem quer que esteja interessado em se demorar em frente a essas pinturas-amizades, evocando outras imagens. Talvez sejam Noites provisórias, infinitas. Tão numerosas quanto são as noites.

—Mariana Leme

[1] ALBERTI, Leon Battista. Da pintura. Campinas: Editora da Unicamp, 1999, p. 84. Tradução de Antônio da Silveira Mendonça.
[2] Idem, p. 85.
[3] Idem, p. 99.

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