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22/04 - 06/06 2021

A Mendes Wood DM tem o prazer de apresentar Outros Ofícios, a aguardadíssima aguardada primeira exposição do trabalho de Antonio Obá no espaço expositivo dana galeria de Bruxelas. Esta será a primeira oportunidade para o público europeu vivenciar a prática de Obá em toda a sua complexidade colorida, com exceção de uma apresentação individual na feira de arte FIAC em outubro de 2019. Ocupando os dois andares da galeria dedo espaço expositivo em Bruxelas, a exposição mostra é composta por novos trabalhos em tela e papel, todos produzidos entre 2020 e 2021.

Ao mesmo tempo que o trabalho de Obá em tela é visualmente sedutor pelo uso das cores e pelos temas, cada composição traz em si uma rica trama de alegorias, metáforas e referências históricas que imploram por serem decifradas. As composições de Obá se baseiam em um amplo panteão de fontes que vão de fotografias familiares pessoais e de imagens de arquivo de eventos históricos ao imaginário da cultura popular, aos mitos e às lendas. O artista é capaz de entrecruzar a riqueza de simbolismos da tradição religiosa ocidental judaico-cristã com os elementos místicos dos sistemas religiosos sincréticos que se desenvolveram no Brasil e na América do Sul como resultado do influxo de números elevados de africanos escravizados e traficados para o continente americano pelos impérios coloniais. Essas religiões diaspóricas africanas, tais como o candomblé, o vodu e a santeria, misturam o imaginário cristão dos colonizadores com as práticas religiosas africanas que cruzaram o Oceano Atlântico em direção ao Novo Mundo.

Nessa mescla caleidoscópica de referências, construções absolutamente inesperadas se tornam possíveis. A imagem de uma figura histórica, tal como Ruby Bridges, a primeira afro-estadunidense a se matricular em uma escola primária para alunos brancos em Novaew Orleans, em 1960, se mistura com o mito de Santa Lúcia de Siracusa que, por sua vez, torna-se Ewa, uma personagem da mitologia iorubá. Da mesma forma, uma fotografia familiar do século XIX de Rose, Edward e Abraham Perkins, antes escravizados e agora donos de terras, colide de uma forma quase impossível com o simbolismo cristão místico de uma tapeçaria da Renascença francesa. Em outra obra, um dos santos cristãos mais conhecidos, o Santiago Maior, se torna o orixá Ogum, deus guerreiro das tradições iorubá, candomblé e vodu que segue os passos de um garoto cuja aparência é baseada em uma imagem de Miguel, um menino de cinco anos que morreu ao cair da varanda de um prédio em Recife, em 2020, provocando um escândalo midiático.

Associações inesperadas como estas constituem uma forma de Obá tratar de assuntos como política social, corrupção política, colonialismo e escravidão, bem como de lidar com questões relacionadas ao pertencimento, à religião e à espiritualidade.

Esse exame sobre o colonialismo e a escravidão forma a base da nova série de delicados trabalhos em papel, feitos com extrato de noz, têmpera dourada e nanquim dourado. Essas composições são assentadas na extensiva investigação do artista sobre objetos relacionados à escravidão no Brasil, que pertencem ao Museu Afro Brasil, em São Paulo,  e à Casa dos Contos, em Minas Gerais.

Os desenhos da série Outros Ofícios são compostos por representações alegóricas oriundas de todo um aparato instrumental criado pela mão de obra escravizada no século XVIII. Muitos dos africanos escravizados enviados para a região de Minas Gerais possuíam conhecimentos e habilidades técnicas em metalurgia, arquitetura e mineração que eram desconhecidos no Brasil da época. O artista destaca um vínculo perverso entre a tradição artesanal e de manufatura e um ciclo brutal de trabalho forçado e produção de objetos que, pela sua própria função, afligiam e violentavam ainda mais os corpos dos escravizados, desde serras, moinhos e tijolos até correntes que os mantinham em cativeiro – toda uma tecnologia voltada à sujeição física.

Ao desmantelar a função original desses objetos de opressão, o artista subverte a história para, assim, restaurar a agência e o poder dos sujeitos em seus desenhos.



Corpos na piscina, ou crescendo como plantas no jardim, um serrote empunhado ao contrário por duas figuras que se negam a cortar uma pequena árvore – imagens quiméricas, quase alegóricas, extraídas de fatos e dramas reais emergem das minhas pinturas e desenhos.

A natureza narrativa de cada obra abrange malícia transformadora do heroi irônico que olhando de soslaio o passado, tão caracterizado pelo ethos e papéis sociais demarcados pela segregação, exploração, perseguição, subverte, manipula a condição de várias histórias herdadas para, olhando adiante, propor outros ofícios.

Emaranhado nas tramas de um duro passado que, por vezes, insiste em bafejar ares tenebrosos no presente, puxo o fio da história; teço em forma, gesto e cor, composições que, ora propoem a revisão de fatos, ora estão envoltas a uma iconografia quase ritualística, num percurso que não reviver o imaginário da dor, mas que a sublima e transfigura como maneira para uma melhor compreensão de si.

– Antonio Obá

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