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Track Changes

03/09 2016 – 30/10 2016


Track Changes assume o modelo das exposições boîte-en-valise‭, ‬que segue o programa da Galeria Plan B em uma retrospectiva e seleção subjetiva‭. ‬De olho no passado e em uma tentativa de construir uma possível narrativa‭, ‬esta exposição conecta diferentes posições da arte romena dos últimos 50‭ ‬anos‭, ‬traçando uma linha desde o regime ditatorial da era comunista‭, ‬quando a arte teve que negociar a sua existência em um contexto de censura estatal‭ (‬mais brando na década de 1960‭ ‬e muito duro na década de 1980‭), ‬passando pela transição pós-comunista dos anos 1990‭, ‬quando o papel sociopolítico da arte assume seriedade‭, ‬e chegando aos anos 2000‭,‬‭ ‬marcados por uma posição de autonomia e independência em um contexto mais amplo do campo internacional da arte‭.   ‬

A relativa abertura política vivenciada na década de 1960‭, ‬após a sombria década de 1950‭, ‬permitiu que os artistas exibissem trabalhos que não refletissem diretamente o discurso político oficial da época‭, ‬artistas que‭ ‬‮–‬‭ ‬conforme sugere Octav Grigorescu‭ ‬‮–‬‭ ‬sonhavam com um lugar feliz da imagem‭. ‬Esse tipo de arte vislumbrava um lugar autônomo em relação à realidade social e política‭, ‬reativando uma conexão com a grande tradição da arte e do pensamento filosófico‭. ‬As icônicas aquarelas de Victor Ciato‭, ‬intituladas Moment 0‭ (‬o autoproclamado momento de um novo começo‭), ‬as pinturas metafísicas de Sorin Campan‭, ‬os espaços utópicos de Horia‭ ‬Damian e o universo mitológico de Octav Grigorescu são representativos desses anos visionários‭. ‬

Uma vez impostas as restrições adicionais da nova ideologia ditatorial‭ (‬após o retorno de Ceausescu da China e da Coreia do Norte em julho de 1971‭), ‬o final da década de 1970‭ ‬e o começo dos anos 1980‭ ‬testemunharam o reestabelecimento de uma arte social e política‭, ‬que respondeu de forma subversiva e corajosa ao difícil contexto da época‭. ‬Artistas como Onucsan e Bone resistiram à pressão do regime com o uso da arte conceitual e da performance‭, ‬enquanto Ioana Batranu reagiu contra essa sociedade fechada‭, ‬corrupta e confusa com pinturas‭, ‬seguindo as suas próprias ferramentas analíticas de filtro‭. ‬Os artistas dos anos 1980‭ ‬e 1990‭ ‬abordaram persistentemente questões sociais e políticas‭, ‬ao mesmo tempo que revigoraram seus trabalhos com uma visão poética‭, ‬uma síntese que é aparente na obra do artista de diáspora‭, ‬Belu-Simion Fainaru‭, ‬mas que todavia permanece essencialmente política‭. ‬

Ao lado de outras vozes da sua geração‭, ‬Ciprian Muresan‭, ‬Adrian Ghenie e Serban Savu se envolveram com o passado recente do Leste Europeu‭, ‬para libertar a própria noção de história de falsificações ideológicas‭, ‬para vinculá-la à experiência pessoal‭, ‬ao acidente conceitual e à história da arte‭. ‬Igualmente interessados nas questões globais e imunes das utopias de revolução e liberalismo‭, ‬os artistas da geração dos anos 2000‭ ‬construíram o seu discurso de uma forma um tanto metafísica e apolítica‭. ‬Victor Man e‭ ‬Iulia Nistor‭ (‬uma voz jovem da diáspora‭) ‬lidam com a condição humana nessa era de incertezas e reimplementam uma linguagem da arte autônoma no contexto contemporâneo‭. ‬

Os materiais visuais exibidos aqui oscilam entre questões metafísicas e políticas e são entendidos como respostas à mesma realidade e conectados dialeticamente‭. ‬Os últimos 50‭ ‬anos de arte romena estão seguindo‭, ‬assim como outros chamados espaços periféricos o fazem‭, ‬a estrada sinuosa de uma sociedade que passa de uma ditatura para a democracia e a globalização‭. ‬Entretanto‭, ‬independentemente da perspectiva na obra de cada artista‭, ‬tendo a si ou ao mundo ao seu redor como pontos de referência‭, ‬a forma de expressão que os une é poética‭. ‬Nenhum dos trabalhos ilustra didaticamente um único ponto de vista‭, ‬mas todos mostram uma grande capacidade em adicionar novos significados e camadas a cada vez e em cada contexto em que são exibidos‭. ‬Talvez a qualidade desta exposição resida no seu próprio efeito-espelho que altera o contexto por trás das peças ao mesmo tempo que as mantêm como exemplos‭ ‬de um fluxo histórico circular‭, ‬sempre transitando entre a condição autônoma e o engajamento político‭.     ‬

A Galeria Plan B foi fundada em 2005‭, ‬em Cluj‭, ‬România‭, ‬por Mihai Pop e Adrian Ghenie‭. ‬A Plan B funciona como espaço de produção‭ ‬e exposição de arte contemporânea e também como centro de pesquisa que enfatiza a arte romena dos últimos 50‭ ‬anos‭, ‬revelando trabalhos de artistas excepcionais‭, ‬sem visibilidade internacional prévia‭. ‬Desde 2008‭, ‬a Plan B opera um espaço de exposição permanente em Berlim e é coordenada por Mihai Pop e Mihaela Lutea‭.‬

Sobre os artistas e as obras em exposição:

Ioana Batranu‭ (‬nascida em 1960‭, ‬vive e trabalha em Bucareste‭) ‬aborda temas que são marginais em relação àquilo que costumava ser‭ ‬a cultura‭ ‬oficial‭ ‬na Romênia e os expressa com uma sensibilidade apurada‭, ‬em uma alternância constante entre subjetividade e realidade‭. ‬Ela trabalha com alguns temas recorrentes‭ (‬interiores melancólicos‭, ‬jardins fechados e latrinas‭) ‬que‭, ‬vistos em conjunto‭, ‬formam uma imagem coerente do seu projeto pessoal‭: ‬buscar o ponto no qual a quebra com o mundo e a tentativa de se sentir em paz com ele sejam‭ ‬simultâneas em sua existência‭. ‬O conflito entre esses dois elementos leva a artista a sujeitos localizados na periferia da sociedade em que vive e nunca no seu centro‭. ‬Como estudos para a série de pinturas a óleo intitulada Latrines‭ (‬Latrinas‭), ‬as aquarelas em exibição reconsideram a dura realidade do final da década de 1980‭, ‬que coincidiu com a queda do regime comunista e a eclosão da Revolução de 1989‭. ‬Os interiores sombrios e impessoais se tornam instâncias de um espaço público alienante‭, ‬definido pela perda de privacidade e de uma estrita rotina diária‭.  ‬

Rudolf Bone‭ (‬nascido em 1951‭ ‬em Oradea‭, ‬Romênia‭, ‬vive e trabalha em Oradea‭) ‬é um dos mais importantes escultores e artistas de performance de sua geração na Romênia‭. ‬Ele está ligado ao contexto experimental do Atelier 35‭ ‬de Oradea‭, ‬um grupo de jovens do Sindicato dos Artistas Gráficos da Romênia que atuou nos anos 1980‭, ‬de forma parcialmente underground‭, ‬sem apoio político ou financeiro‭, ‬desconectado de qualquer ideologia e até mesmo subversivo em relação ao regime comunista‭. ‬A arte de Rudolf Bone é uma referência importante para se entender o experimentalismo e reconsiderar a prática escultórica na Romênia‭. ‬Bone é excepcional em sua capacidade de combinar um toque leve e uma abordagem lúdica na produção de arte‭, ‬com uma preocupação constante e profunda em encontrar uma verdade estável e única‭. ‬Confrontando a realidade política e social da era de Ceausescu‭, ‬seu trabalho foi ganhando‭ ‬um tom cada vez mais subversivo‭.‬O artista cultiva um interesse consistente pela especificidade de diferente materiais‭. ‬Já trabalhou com elementos tão diversos quanto areia‭, ‬terra‭, ‬barbante‭, ‬vídeo‭, ‬fotografia‭, ‬fundição de alumínio‭, ‬plantas e peixes vivos‭, ‬expandindo sua prática escultórica para a performance‭. ‬Interessado na ideia de arte em andamento e no caráter efêmero da obra de arte‭, ‬Bone muitas vezes recorre‭ ‬a vidros quebrados nos seus happenings‭, ‬tais como em Haiku‭, ‬realizado pela primeira vez em 1986‭. ‬Neste trabalho‭, ‬Bone lida com uma das ideias centrais de seu processo de criação artística‭: ‬o vínculo entre o artista e a sua própria criação‭, ‬para a qual ele‭ ‬estabelece um potente contraponto‭. ‬O objeto efêmero não tem chance de se tornar em cult‭. ‬O efeito acústico do vidro quebrando carrega uma forte mensagem‭: ‬a força do momento fica impressa na profundeza da percepção do espectador‭. ‬O envolvimento do próprio artista nos seus happenings nos anos 1980‭, ‬na Romênia‭, ‬serviu como um chamado de participação e envolvimento‭.
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A obra de Sorin Campan‭ (‬nascido em 1940‭, ‬vive e trabalha em Cluj‭, ‬Romênia‭) ‬alcança sua aparência de simplicidade por meio de uma‭ ‬reflexão sutil sobre os instrumentos da pintura e sobre uma série de desvios‭. ‬Sua articulação enigmática exige uma leitura paciente‭. ‬Imagens simples‭, ‬tais como paisagens noturnas ou naturezas mortas com frutas‭, ‬são pretextos para inserir mistério‭, ‬para sujeitá-las a uma espécie de ordem que não coincide com sua tradução ou explicação‭. ‬Para além da sempre surpreendente dosagem de transparência e sigilo‭, ‬a qualidade da pintura‭ ‬‮–‬‭ ‬a austeridade dos meios e seus cromáticos quase sempre exuberantes‭ ‬‮–‬‭ ‬fazem de Campan um artista extraordinário‭. ‬

Victor Ciato‭ (‬nascido em 1938‭, ‬vive e trabalha em Cluj‭) ‬é um dos poucos pintores abstratos romenos do pós-guerra que não se rendeu às pressões do Realismo Socialista‭. ‬Pelo contrário‭, ‬em uma reação contra o sistema opressivo‭, ‬Ciato se desconectou da estética dominante marcada pela figuração e desenvolveu sua própria realidade artística com base na pura abstração‭. ‬As duas aquarelas apresentadas aqui fazem parte da série Moment 0‭ (‬Momento 0‭), ‬produzida entre 1966‭ ‬e 1968‭. ‬Após terminar os seus estudos no Instituto de Belas Artes Ion Andreescu‭, ‬em Cluj‭, ‬em 1964‭, ‬seu Moment 0‭ ‬representou um ponto de virada na sua prática artística‭, ‬pois evidenciou um desejo de se libertar das normas acadêmicas e do lastro da pintura de culto ao proletariado e de reinventar‭ ‬‮–‬‭ ‬de uma forma verdadeiramente modernista‭ ‬‮–‬‭ ‬criando as suas próprias normas‭. ‬Dessa forma‭, ‬ele desenvolveu essa série de aquarelas abstratas‭, ‬trabalhos que não tinham como intuito representar nada em particular‭. ‬São abstrações puristas‭, ‬de um colorido refinado‭. ‬Hoje‭, ‬o seu valor artístico é redobrado pela importância do exercício autoformativo‭, ‬realizado naquelas circunstâncias‭. ‬Em relação‭ ‬à arte da época‭, ‬sua busca no campo problemático do não-figurativo pode ser entendida como um gesto radical de redefinição‭.  ‬

Horia Damian‭ (‬1922-2012‭) ‬nasceu em Bucareste‭, ‬onde fez as suas primeiras exposições individuais antes de se mudar para Paris em‭ ‬1946‭. ‬Colaborou e dialogou com artistas tais como Fernard Leger‭, ‬Constantin Brancusi‭, ‬Auguste Herbin‭, ‬Saldavor Dali e Ives Klein‭. ‬A obra de Damian é embasada na tradição europeia de construtores de monumentos‭, ‬admiravelmente exemplificada pelo seu compatriota romeno‭, ‬Brancusi‭, ‬em estruturas‭, ‬tais como Coluna Infinita e Portão do Beijo‭. ‬Por meio da escolha deliberada de seus sujeitos e de uma análise aprofundada de alguns poucos temas‭, ‬Damian pode ser comparado a Christo‭, ‬que também revela uma variedade infinita de ideias-objetos através de ciclos de trabalho‭. ‬No entanto‭, ‬diferentemente de Christo e Yves Klein‭ ‬‮–‬‭ ‬contemporâneo e amigo‭ ‬de Horia Damian‭ ‬‮–‬‭, ‬Horia está‭, ‬em última instância‭, ‬preocupado com a intuição de uma ordem espacial extraterrestre‭. ‬Damian criou esculturas monumentais e simbólicas‭, ‬dando a elas uma perspectiva metafísica que as distingue de trabalhos contemporâneos de Arte Minimalista americana‭, ‬feitos por nomes como Ronald Bladen‭, ‬Robert Grosvenor ou Tony Smith‭.
‬Em 1975‭, ‬ele construiu para o Guggenheim Museum‭, ‬em Nova York‭, ‬a escultura The Hill‭ (‬A Colina‭). ‬O diretor do museu na época‭, ‬Thomas Messer‭, ‬escreveu sobre as peças de Damian‭: ‬“em todas elas‭, ‬Damian visa essencialmente alcançar os mesmos resultados e todos os seus conceitos‭, ‬portanto têm um significado paralelo dentro de sua obra completa‭. ‬A arte de Damian‭, ‬baseada em uma técnica impecável e uma preocupação obsessiva com materiais‭, ‬não pode ser criticada pela falta de concretude‭. ‬No entanto‭, ‬apesar da escassez e redução de suas estruturas‭, ‬interpretações‭ ‬minimalistas ou formalistas não são suficientes neste caso‭, ‬pois as suas referências explícitas são o espaço celestial ao invés‭ ‬de terrestre‭, ‬uma ordem mundial ideal ao invés de palpável e realidades sacrais ao invés de temporais”‭.  ‬

Belu-Simion Fainaru‭ (‬nascido em 1959‭ ‬em Bucareste‭, ‬Romênia‭) ‬vive e trabalha em Haifa‭, ‬Israel‭. ‬O trabalho de Fainaru usa uma vasta gama de técnicas‭, ‬tais como escultura‭, ‬instalação‭, ‬desenho e vídeo‭. ‬Seus trabalhos contêm várias camadas de significados que abordam a história judaico-romena e questões de identidade e de território‭. ‬Embora sua predileção por esses assuntos seja indisputável‭, ‬a obra de Fainaru também lida‭, ‬indiscutivelmente‭, ‬com temas humanos universais‭. ‬De acordo com Dr‭. ‬Daniel Wayman‭, ‬da Universidade de Tel Aviv‭: ‬Ao longo dos anos‭, ‬o artista Belu-Simion Fainaru vem lidando com questões ligadas ao conceito do nada‭, ‬que impulsiona a sua criatividade‭. ‬As características monasticamente condensadas de seus trabalhos‭, ‬a esparsa escolha de materiais‭, ‬as formas e as cores‭ ‬limitadas‭ (‬majoritariamente‭,  ‬preto e branco‭), ‬bem como o uso da inscrição hebraica‭, ‬direcionam o espectador a significados espirituais simbólicos e a questões filosóficas além da identificação do objeto físico presente‭. ‬Em alguns dos objetos‭, ‬derivados do‭ ‬conceito de ready-made‭, ‬a tensão é criada pela interrupção de sua funcionalidade e pela desconexão com seu propósito útil‭. ‬Esses sistemas de dualidade nos incentivam a questionar o presente existente‭, ‬a identidade ou a realidade atual que nós apreensivamente abraçamos perante a ameaça do vazio e do nada‭. ‬Assim como em Black Sea‭ (‬Mar Negro‭), ‬de 2008‭,, ‬o líquido preto como tema recorrente na sua obra se refere à imagem do leite negro que aparece no poema de Paul Celan‭, ‬Fuga da Morte‭: ‬Leite negro da madrugada nós o bebemos de noite‭/ ‬nós o bebemos ao meio-dia e de manhã‭/ ‬nós o bebemos de noite nós o bebemos e bebemos‭. ‬Como Celan‭, ‬Fainaru combina contrastes criando uma rica realidade simbólica derivada do passado e do presente‭, ‬do sagrado e do profano‭, ‬da alma e do corpo‭. ‬Tal qual o endereço meridiano de Celan que descreve uma busca simbólica de um mapa de sua infância em uma aspiração em encontrar um lugar que é não lugar‭ ‬‮–‬‭ ‬como no poema‭, ‬onde ele se encontra de novo‭ ‬‮–‬‭, ‬Fainaru combina objetos e‭ ‬imagens‭, ‬cenas e memórias‭, ‬que criam uma jornada interior e exterior em busca de identidade e lugar‭.  ‬

Adrian Ghenie‭ (‬nascido em 1977‭, ‬trabalha em Cluj e em Berlim‭) ‬isola e abstrai episódios específicos da agitada história do século XX‭. ‬Suas pinturas são repletas de história ao mesmo tempo que manifestam um forte desapego histórico‭: ‬as cenas históricas são‭ ‬reconstruídas como imagens dialéticas trágicas ou cômicas‭, ‬desconectadas de um contínuo cronológico‭, ‬familiares nas suas referências‭, ‬mas estranhamente elusivas como somas reconfiguradas dessas referências‭. ‬Na sua suspensão‭, ‬elas materializam intersecções‭ ‬acidentais do eu e da história‭. ‬

Na pessoa e na arte de Octav Grigorescu‭ (‬1933-1987‭) ‬coincidem‭, ‬de um lado‭, ‬uma nostalgia tipicamente de vanguarda pelo primordial e pela veneração do elementar e‭, ‬de outro‭, ‬um gosto pós-modernista por deleites crepusculares e pelo pressentimento da morte‭. ‬Nascido em 1933‭, ‬Octav Grigorescu morreu em 1987‭, ‬com apenas 54‭ ‬anos de idade‭. ‬No entanto‭, ‬durante a sua curta vida‭, ‬criou uma obra que marcou para sempre a arte romena do século XX‭. ‬Como desenhista‭, ‬xilógrafo e pintor‭, ‬sua produção é fecunda‭.‬Octav Grigorescu mergulha nos seus devaneios arqueológicos‭, ‬históricos‭, ‬mitológicos‭, ‬bíblicos e até mesmo rotineiros‭, ‬filtrando‭ ‬sutilmente ecos de Da Vinci‭, ‬Poussin e Hans von Marees‭, ‬aos quais podemos acrescentar vários outros nomes‭. ‬A memória também está em jogo no nível mais estrito da técnica‭, ‬quando Octav Grigorescu recria a ilusão do palimpsesto‭, ‬que é extremamente sugestiva precisamente em suas pinturas‭ ‬históricas‭, ‬nas quais a evocação da temporalidade é uma necessidade e uma condição‭. ‬O‭ ‬realismo integral‭ ‬sobre o qual Octav Grigorescu discorre em um dado momento significa a reabilitação da plenitude do mundo como um todo‭, ‬que emerge da fascinante maldição do‭ ‬fragmento. ‬Suas pinturas históricas e bíblicas são uma série de‭ ‬visões‭ ‬no sentido original e etimológico da palavra‭. ‬Visões que tendem a captar momentos-chave na história da humanidade‭, ‬em uma perspectiva unificadora que une os eventos cruéis da história com os tempos bíblicos‭.  ‬

Os trabalhos de Victor Man‭ (‬nascido em 1974‭, ‬vive e trabalha em Berlim e em Cluj‭) ‬examinam os limites do entendimento a partir de uma perspectiva diferente‭: ‬uma leve dosagem de referências contextuais incentiva e‭, ‬ao mesmo tempo‭, ‬torna incompleta uma elucidação do que acontece em suas pinturas e da natureza de seus incidentes diáfanos‭. ‬Man retorna à infraestrutura sutil da informação e de indícios visuais que permitem que uma cena seja imaginativamente colocada‭ ‬em algum lugar ‬e que seja entendida como representando‭ ‬“alguma coisa”‭, ‬levando isso ao limite até que colapse sobre si mesmo‭. ‬O distinto vocabulário visual de Victor Man é orientado por uma constante exploração dos paradoxos e contrariedades de seu próprio ser‭. ‬Victor Man opera na profundeza da visão‭, ‬no olho‭, ‬no olho-útero que gera a visão das coisas‭, ‬ou seja‭, ‬as sementes‭, ‬planos‭, ‬esboços e croquis divinos‭. ‬No seu trabalho‭, ‬Victor Man incansável e obstinadamente procura um nível possível de operação‭, ‬intervindo‭ ‬por meio da visão sobre a formação das coisas‭, ‬em um nível de operação altamente espiritual e definitivo do encontro entre o olho e o útero‭, ‬no qual a plasticidade da pintura é encontrada e‭, ‬como alquimia‭, ‬identificada com a plasticidade germinativa das coisas e da natureza‭. ‬Uma prova adicional dessa busca e avanço heroico na sua trajetória‭, ‬que Victor Man épica e heroicamente se prova capaz de alcançar‭, ‬é uma pintura recente‭ (‬2015-2016‭), ‬chamada Early Paradise‭ (‬Paraíso inicial‭), ‬que representa um estudo para uma World Flag‭ (‬Bandeira do mundo‭), ‬uma excepcional pintura dentro de uma pintura na qual a representação é explicitamente alegórica‭. ‬A ilustração dos ovos astrais e da cabeça ovular deformada buscando o seio materno‭, ‬um ovo‭, ‬um corte‭, ‬um botão‭, ‬uma gota de orvalho etc‭., ‬culmina em um novo estágio da imaginação do descolorir‭, ‬do‭ ‬sombreamento‭, ‬desta vez simplesmente por meio do apagamento das cores‭, ‬como em um trabalho de restauração‭, ‬e o retorno‭, ‬desse modo‭, ‬transvisual‭, ‬ao desenho que está embaixo‭, ‬manchando a tela como apoio da realidade‭, ‬que cria um flash na luz coberta‭, ‬sombreada ‬pela história‭.‬ (‬extraído de um texto de Bogdan Ghiu‭)‬

Ciprian Muresan‭ (‬nascido em 1977‭, ‬vive e trabalha em Cluj‭) ‬vira de ponta-cabeça a experiência contemporânea e‭, ‬com ela‭, ‬a autoridade da história da arte‭. ‬Seus trabalhos distintamente irônicos lidam com a transição social da Romênia atual‭, ‬com a substituição de valores como a tradição e a religião‭, ‬mas também com a substituição da propaganda comunista pelo novo imaginário de uma sociedade consumista‭. ‬A prática do vídeo sustenta um lugar especial na extensa produção de Ciprian Muresan‭, ‬que também inclui desenhos‭, ‬esculturas e instalações‭. ‬Em Dog Luv‭ (‬Amor de Cão‭) (‬2009‭), ‬um dos seus primeiros trabalhos em vídeo comissionados para o Pavilhão da Romênia na 53a Bienal de Veneza‭, ‬Muresan estabelece um debate social em um contexto teatral‭. ‬Marionetes de cachorros pretos feitas à mão‭ ‬foram animadas com base em um texto da dramaturga Saviana Stanescu sobre os traços mais sombrios da realidade‭. ‬O diálogo sobre tortura e execução gradualmente se transforma em uma dramatização das cruéis ações em discussão‭, ‬e as relações de poder entre os‭ ‬cinco cachorros mudam dramaticamente ao longo da duração do vídeo‭, ‬de solidariedade para violência‭. ‬Ao vestir os personagens de‭ ‬preto‭, ‬um método usado por manipuladores de marionetes para se esconderem da plateia‭, ‬Muresan revela os cachorros como marionetes‭, ‬colocando as marionetes e os seus manipuladores no mesmo palco‭, ‬portanto redistribuindo igualmente a importância desses elementos e sequestrando o formato tradicional do teatro de marionetes‭. ‬

Iulia Nistor‭ (‬nascida em 1985‭, ‬vive e trabalha em Frankfurt‭) ‬lida com a potencialidade da incerteza e da desorientação‭, ‬na qual‭ ‬a pintura se torna um instrumento epistemológico‭. ‬Seu processo de pintura é uma constante negociação entre informar e descarregar a imagem e enfatiza a qualidade‭, ‬ou seja‭, ‬o caráter qualitativo da experiência‭, ‬assim como o aspecto sensual das coisas‭. ‬Os trabalhos de Nistor estão na intersecção da semiótica e do fenômeno visual‭, ‬na qual uma linguagem significadora de imagens é incorporada a um campo sensual usando sobreposições e véus de tons para criar profundidade fenomênica‭. ‬As camadas múltiplas e o processo de repetidamente adicionar e subtrair introduzem a dimensão do tempo‭, ‬que contrasta com a urgência dos elementos expressivos‭ ‬e simbólicos‭. ‬Coordenadas também determinam a posição em um espaço tridimensional da qualidade em E1‭ ‬F8‭ ‬P4‭ (‬2016‭) ‬e em E7‭ ‬W6‭ ‬A3‭ (‬2016‭), ‬fazendo delas‭ ‬peças de evidência‭, ‬um formato de pintura a óleo em madeira com as mesmas dimensões‭, ‬40‭ ‬x 50‭ ‬cm‭/ ‬50‭ ‬x 40‭ ‬cm‭. ‬Dessa forma‭, ‬Nistor questiona as convenções de nossa percepção e pensamento para criar uma nova potencialidade do pensar‭. ‬A artista cria imagens icônicas do efêmero‭ ‬ao mesmo tempo que tenta preservá-lo‭. ‬

Serban Savu‭ (‬nascido em 1978‭, ‬vive e trabalha em Cluj‭) ‬pinta o‭ ‬Novo Home ‬‮–‬‭ ‬o tão esperado produto da sociedade comunista‭, ‬criado no laboratório ideológico‭ ‬‮–‬‭, ‬preso à melancolia de sua rotina de anonimato na transição para o capitalismo‭. ‬A distância entre o ideal e o real carrega a imagem de tensões‭, ‬pois Savu pinta a imagem de‭ ‬um mundo após a falência de um projeto histórico‭. ‬Caracterizadas por empatia e exame minucioso‭, ‬observação e abstração‭, ‬redução‭ ‬e recomposição‭, ‬suas pinturas são capazes de iniciar uma avaliação do momento presente entendido em um sentido amplo e histórico‭. ‬Mais sombria do que a maioria dos seus quadros do cotidiano‭, ‬a inquietante paisagem de‭ Blackout‭ (‬2016‭) ‬é uma cena rara devido à ausência de uma figura humana‭, ‬que‭, ‬no entanto‭, ‬está presente na silhueta fantasmagórica da parcialmente desmoronada torre de transmissão de alta voltagem‭. ‬Abandonada na vasta expansão natural‭, ‬a gigantesca estrutura ereta pelo homem funciona tanto como um lembrete da falência da tecnologia quanto como uma reflexão da humanidade em geral‭. ‬

Miklos Onucsan‭ (‬nascido em 1952‭, ‬Gherla‭, ‬Romênia‭, ‬vive e trabalha em Oradea‭) ‬trabalha em um viés conceitual‭, ‬lidando com uma vasta gama de questões altamente pessoais‭, ‬mas que também são capazes de adquirir uma ressonância ampla‭. ‬Suas intervenções também trazem à mente um espírito a la Fluxus‭. ‬Em suas própria palavras‭, ‬seu trabalho não visa representar ou substituir a realidade existente‭, ‬mas orientar nossa percepção por meio de alterações quase imperceptíveis daquilo que encontramos no mundo‭.‬ Em Stiff Ballet for the End of the Century‭ (‬Balé duro para o fim do século‭) (‬1996‭), ‬Miklos Onucsan usa uma experiência real como‭ ‬ponto de partida‭: ‬em um dia de muito calor‭, ‬no meio das pessoas caminhando pela rua‭, ‬uma criança solta um balão que começa a‭ ‬dançar ‬no ar‭, ‬conforme se esvazia‭. ‬A partir daquele momento fugaz‭, ‬Onucsan desenvolve uma performance realizada por um grupo de pessoas atuando de forma rígida‭, ‬mas simultaneamente envolvidas em uma coreografia ativada pelos balões que elas seguram e soltam‭ ‬‮–‬‭ ‬uma dança livre‭, ‬sem edições e imprevisível‭, ‬dentro das coordenadas fixas e pré-definidas da performance‭, ‬como um tributo poético‭ ‬ao século prestes a terminar‭, ‬embasado em um ponto de vista tanto crítico quanto bem-humorado‭.  ‬

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