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25/05 – 14/08 2019


lorsqu’une societé disparait, ce qui lui survit c’est la forme d’art qu’elle s’est choisie...

(Hollis Frampton citado por Jean-Luc Godard no filme Le livre d’image) 

O novo conjunto de pinturas apresentadas nessa exposição, dá seguimento à pesquisa de Patrícia Leite sobre a luminosidade e a vibração da luz. Já em suas duas exposições anteriores, Olha pro céu, meu amor e Lusco Fusco de 2018, ela vinha desenvolvendo um corpo de trabalhos em que busca revelar a luz no contraste com o céu do fim do dia. Sobre um fundo quase sempre escuro, surgem fogos de artifício, lua e estrelas, luzes de natal, uma fogueira, um brilho na água,  uma fresta ou uma quina. A busca pela representação daquilo que “acende” encontra agora outras paisagens quase sempre urbanas. As cenas parecem um tanto melancólicas e fragmentadas, são enquadramentos de detalhes de elementos de um parque de diversão, recortes de letreiros brilhantes, uma visão em contre-plongé de um vitral em uma igreja... Em cada motivo, nas imagens editadas de seu arquivo pessoal há uma espécie de mundo singular com pontos de vista incomuns a partir de um pensamento visual único inspirado pelo cinema e pela fotografia. 

Reconhecer uma imagem daquilo que se tem diante de nós ou em nós, e imediatamente fazer uma nova imagem, totalmente autônoma em seu funcionamento ainda que nascida na vida do mundo.

Em uma das pinturas desse conjunto, Natureza Morta com Barnett Newman (2019), uma praia aparece ao fundo e em primeiro plano, vemos uma superfície coberta com uma toalha xadrez e sobre ela uma gamela com abacaxis. Trata-se de uma natureza morta sobreposta a uma paisagem: os gêneros clássicos da pintura são premissas para o exercício de passagem entre figuração e abstração que se torna cada vez mais complexo A aproximação com Newman aqui é divertida e apropriada. Em suas pinturas Newman, criava linhas verticais (os zíperes) que atravessam a tela de cima abaixo definindo a estrutura espacial do plano. Na série de marinhas realizada por Patricia no início dos anos 2000, as linhas horizontais de cor definindo o horizonte e o encontro entre mar e areia vão de um lado a outro da tela e demarcam a estrutura da pintura. Patricia revisita um trabalho seu de 2003 (Barnett Newman) acrescentando agora uma nova camada de composição, sempre orientada pela cor. 

Aproximar os trabalhos de Patricia Leite aos trabalhos de Cristiano Rennó teve como ponto de partida a minha memória afetiva das cores de cada um e um grande sentimento de liberdade que habita o trabalho de ambos. Tanto Cristiano quanto Patricia têm a cor como o elemento estruturante de sua produção e são artistas que resistem às categorias tradicionais da história da arte. Apesar de terem a pintura como atividade principal, não a praticam de forma convencional, nem no gênero, nem na forma. 

Cristiano tem uma produção em pintura que segue dois eixos principais. No primeiro eixo, pelo plano bidimensional, ele experimenta diferentes tipos de suporte, desde a tela e a madeira até o isopor. Na série De bandeja (2016), ele utiliza embalagens de isopor como base para pinturas abstratas, principalmente monocromáticas, em que formas figurativas vão se revelando na materialidade da tinta e de outros materiais que se valem de tinta, como tabaco, cera ou terra. Nesses trabalhos, Cristiano segue o caminho inverso da pintura de Patricia, que tende à simplificação geométrica pela redução da figuração. Ele parte da abstração para a composição de pequenas paisagens. 

Em um segundo eixo, Cristiano realiza pinturas expandidas no espaço: instalações em que planos cromáticos são sobrepostos e combinados de acordo com a ação do público. Em Cortina (2012) grandes tiras de plástico vermelhas e amarelas foram suspensas a 25 metros de altura no vão do prédio do CCBB do Rio de Janeiro criando uma longa fachada bicolor que se estendia até o chão. Com o movimento do público as faixas de cor se misturavam criando diferentes cruzamentos de cor a cada dia. Em Fitas realizada para a atual exposição, o artista parte de um princípio parecido ao da obra de 2012 mas agora utilizando a cor do próprio ambiente, o verde do jardim, como matéria para o trabalho. Um grande conjunto de fitas de tecido preto de diferentes espessuras está a disposição do público na sala transparente e no jardim, como uma longa fita de Moebius, sem dentro nem fora, infinita. Aqui, a pintura é viva e é uma abstração com materialidade feita para tocar. Um convite a “um mergulho do corpo em coisas táteis” (Hélio Oiticica). 

O pensamento do artista toma corpo por meio da pintura mas ele deixa espaço para que o pensamento da própria pintura aconteça por ela mesma. 

Patricia e Cristiano são conterrâneos e são amigos. Os dois viram, olharam e observaram muitas vezes seus respectivos trabalhos desde que começaram a pintar quando eram alunos de Amílcar de Castro (1920-2002) no Núcleo Experimental de Arte em Belo Horizonte e quando dividiram o ateliê no início dos anos 1980. Há enorme cumplicidade entre eles e muitas coisas que eles dividem e outras tantas que eu divido com eles. Entre elas uma lista grande de nomes de artistas preferidos e a intimidade com o azul limpo e profundo do céu de Belo Horizonte. Um desses compartilhamentos resultou em Teia, 2003 de Patricia que é uma  representação da obra homônima de Cristiano realizada no Museu da Pampulha em 2003. Na instalação Teia um enorme emaranhado de fios, fitas e faixas coloridas ocupava o espaço central do museu e se transformava a cada dia, como resultado do jogo proporcionado pela obra. O desenho de Patricia é uma sucessão de linhas coloridas que ocupa todo o espaço do plano, fixando um momento da composição a partir do ponto de vista do participante. Feito a partir da experiência do obra,  onde todos os possíveis tem lugar. 

Acabo de escrever esse texto no dia 15 de maio de 2019, dia em que uma das maiores manifestações públicas vistas desde 2013 no Brasil aconteceu nas ruas do país. Milhares de pessoas ocuparam o espaço público e protestaram contra o corte de recursos à educação anunciado pelo atual governo brasileiro. Há uma enorme tensão social que já dura alguns meses e que impacta todas as esferas da vida: a sociabilidade, a intimidade, os relacionamentos, nossos corpos. A realidade se apresenta extremamente opressora, injustiça e intolerância aumentam aceleradamente. 

Sendo a arte uma expressão honesta de uma experiência pessoal e social, intrínseca a seu contexto político, ela é puro sentimento da realidade. A arte é o que sobra, é parte da “parte maldita” (Georges Bataille). Continuar trabalhando, pensando, criando e agindo diante dessa realidade é resistir. É preciso persistir e recombinar. 


– Camila Bechelany

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